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    12 ANOS DE ESCRAVIDÃO

    Maniqueísmo exagerado, mas bem envernizado
    Por Roberto Guerra
    22/02/2014

    Não tenho o hábito de pegar filme badalado e maldizer só para parecer ter um ponto de vista diverso (e quem sabe mais perspicaz) que a maioria. Tem quem não perca a oportunidade, mas não é o caso. Só que desta vez me vejo obrigado a ser do contra: 12 Anos de Escravidão, que vem ganhando tudo que é prêmio e elogio por onde passa - franco favorito ao Oscar de Melhor Filme - está sendo valorizado muito além de seus méritos.

    Steve McQueen é um bom diretor – já provou isso em Fome (2008) e Shame (2011). Não perde a mão da condução em 12 Anos de Escravidão: oferece ao público um filme plasticamente esmerado, bem levado tecnicamente, mas simplório e extremamente maniqueísta em seu enredo. Do início ao fim do longa temos bem definidos heróis e vilões. Estes (sem exceção) são todos os brancos sulistas estadunidenses no período escravocrata. Aqueles, todo e qualquer negro vítima da escravidão.

    O personagem central é Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor, excelente), negro livre residente no norte dos Estados Unidos que é sequestrado e vendido ilegalmente como escravo para um fazendeiro do sul. O que segue é o sofrimento deste homem ao longo de 12 anos em que se vê desprovido de sua liberdade e distante da mulher e dos filhos que desconhecem seu paradeiro.

    Ser livre, letrado (ele é violinista profissional) e se ver de repente escravo e desprovido de sua identidade e liberdade é algo terrível. O espectador não demora muito a se ver no lugar de Solomon, de imaginar-se de uma hora para outra privado de sua autonomia. São elementos mais que suficientes para garantir a comoção do público, que se indentifica mais com o sofrimento de alguém próximo socialmente de sua realidade que distante – talvez isso explique o êxito do longa.

    McQueen, no entanto, enfatiza além do razoável a via-crúcis de Northup e a vileza de seus algozes. O fazendeiro vivido por Michael Fassbender é quase uma caricatura, um psicopata doentio cujos atos são mal justificados. Aparentemente judia dos seus escravos por querer aumentar a produtividade de sua fazenda de algodão, depois por ser tarado por uma das escravas, mais tarde por ser um fanático religioso, talvez por ser um bêbado. Talvez por tudo isso. Não importa, o personagem serve apenas para legitimar o sofrimento do protagonista.

    Tudo bem que a concorrência no Oscar 2014 não está lá essas coisas. Até agora não sei o que filmes como Capitão Philips e O Lobo de Wall Street estão fazendo ali entre os indicados. Mas chama a atenção como as técnicas anciãs de fisgar o público – identificação rápida com o protagonista e dicotomia rasa entre bem e mal – ainda são eficientes nos dias de hoje, mesmo para um público mais "versado" em cinema. É só jogar um verniz.