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    35 DOSES DE RUM

    Uma das mais belas elegias ao olhar do cinema recente
    Por Sérgio Alpendre
    26/10/2009

    Claire Denis e seu cinema carnal. Foi assim em seus melhores filmes: Desejo e Obsessão, Nenette et Boni, O Intruso. É assim também em 35 Doses de Rum, uma das mais belas elegias ao olhar do cinema recente.

    Alex Descas é Lionel, o imigrante africano que vive com a filha, Josephine (Mati Diop) em um subúrbio de Paris. Um jovem órfão, Noé, ronda Josephine, mas ela tem dúvidas, não sabe se é capaz de se entregar a esse amor. Não sabe sequer se o ama. Sua mãe alemã morreu quando ela era novinha, e por isso a relação entre ela e o pai é cercada de um carinho especial, que às vezes se confunde com o de namorados.

    Essa confusão só é possível porque o olhar de Lionel é tão forte, que parece fazer tremular tudo que está a seu redor. Sua vizinha, Gabrielle, é apaixonada por ele. Como ela também tem uma força incrível no olhar, é particularmente tocante a sequência de dança em um pequeno bar, após todos - Lionel, Josephine, Gabrielle e Noé, nossos comoventes heróis do subúrbio - perderem um show. Lionel dança com Gabrielle, depois com a filha. Depois se afasta, mas observa a filha dançando com Noé. Quando passa a dona do bar, ele a seduz, diante do olhar tristonho de Gabrielle

    Nessa sequência espetacular fica claro o tipo de cinema que Denis faz como ninguém. Cinema dos corpos, das movimentações, da câmera sensível aos olhares dessas pessoas que são comoventes assim que aparecem em cena, sem precisar de maior revelação de seus dramas. Tomemos a dona do bar como exemplo. Sua negritude tem uma beleza avassaladora, assim como o olhar de Lionel. Seria obrigatório que um seduzisse o outro. Não haveria outra opção na história como ela se desenrolou. Olhar de um, olhar de outro, balé de olhares, corpos se atraindo, se tocando, festa do cinema.

    Essa é a principal característica que a diferencia de Ozu, com quem foi comparada preguiçosamente neste filme (que ela confessou ser uma homenagem ao diretor japonês). Em Ozu, vemos pessoas frias, que vão se desvelando a nós por insistência da câmera e do tom sóbrio e terno do diretor. Em Denis, os corpos já estão ali, à beira da explosão. Tudo o que podemos fazer é permitir que suas dores nos toquem. Não é algo difícil de acontecer.



    35 Doses de Rum (35 Shots of Rum), de Claire Denis
    Dia 29/10 (quinta-feira), Cine TAM, 19h (Sessão 705)