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    A BELA QUE DORME

    Longa com atuações boas desliza na falta de ritmo
    Por Cristina Tavelin
    01/07/2013

    A discussão sobre a eutanásia de Eluana Englaro, italiana cujo acidente de carro deixou 17 anos em estado vegetativo, certamente, causou impacto maior do que se pode mensurar. A Bela que Dorme levou essa hipótese à vida de diversos personagens, na tentativa de transmitir os sentimentos causados pelo acontecimento. Conseguiu, em partes.

    Em uma das histórias, uma mãe passa a vida esperando a filha desenganada acordar do coma.  A personagem vivida pela ótima Isabelle Huppert (A Professora de Piano) deixa tudo de lado, incluindo filho, marido e sua exímia carreira de atriz. Tenta acreditar em Deus, mas não consegue. Vê o tempo passar pela janela, tão imóvel quanto à garota prostrada na maca com tubos de oxigênio.

    Os tons escuros de sua casa empregam o ar de temor semelhante ao de uma igreja. As cenas passadas dentro do lugar são as mais bonitas do filme, cujos traços marcantes não estão na parte estética. Sua força reside nos personagens.

    Entre os que ganham maior destaque estão o senador de esquerda Toni Servillo e sua filha Maria, militante católica em defesa da vida de Eluana. Os dois entram em um embate particular sobre o assunto de abrangência mundial. A garota conhece Roberto e se apaixona por ele, que precisa lidar com um irmão com distúrbios mentais dependente de sua atenção. Além deles, uma junkie suicida e um médico idealista integram esse repertório, entre outros.

    Apesar de o fundamento de cada história ser interessante e elas estarem entrelaçadas, não há fluência no ritmo do longa coescrito e dirigido por Marco Bellocchio. Quando você praticamente esqueceu um personagem, ele reaparece subitamente, enquanto outros não saem de vista; deixa a impressão de certas tramas terem sido elaboradas de forma mais cuidadosa na comparação com outras, de potencial tão ou mais envolvente.

    Essa oscilação ao transitar por diferentes mundos não deixa espaço para o aprofundamento de alguns personagens e suas miríades de valores, crenças e sentimentos.  Apesar disso, o elenco leva vantagem por ser composto de bons atores, com desempenho notável até nas passagens rápidas.

    A Bela que Dorme causa impacto por tratar de um tema tão controverso: a liberdade de escolha do indivíduo em relação à própria morte. Quando não há capacidade de decisão consciente, o assunto torna-se ainda mais delicado. E, ao tentar abordá-lo em toda sua amplitude, o longa não consegue manter o ritmo - mesmo com diversos pontos positivos.