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    A CAÇA

    Retrato da fragilidade da justiça e convivência em grupo, A Caça está entre os melhores filmes de Thomas Vinterberg<br />
    Por Cristina Tavelin
    18/03/2013

    O ser humano acredita estar em um nível superior ao dos outros animais por algumas capacidades extras, como a do raciocínio. Porém, mesmo tendo consciência distinta, não elimina outras etapas de sua evolução. Continua movido pelos instintos mais primários em momentos de angústia e incerteza. A Caça nunca termina.

    O novo drama do diretor Thomas Vinterberg, que adora explorar a questão da convivência em grupos (como fez no ótimo Festa de Família), traz novamente esse argumento à tona de maneira amplificada. As picuinhas do âmbito familiar agora tomam proporção devastadora em uma pequena comunidade.

    Lucas (Mads Mikkelsen) é uma espécie de bode expiatório na trama. Para absorver a experiência do filme, tenha em mente o significado cultural dessa expressão: para purificar o território, os hebreus separavam dois bodes; um era morto e outro designado a carregar os pecados alheios, abandonado no deserto.

    O vilarejo onde A Caça se ambienta vive cheio de dilemas abafados. A pequena Klara tem pais relapsos, sendo um deles o melhor amigo do professor Lucas. Após se separar e perder a guarda do próprio filho, ele tenta reconstruir a vida na pequena comunidade onde trabalha em uma creche. Vendo a situação da menina, a leva para casa quando está perdida e à escola quando nenhum dos progenitores assume tal responsabilidade.

    Com esses gestos, a afeição de Klara pelo novo amigo cresce de forma desmedida e ela acaba por demonstrar esse sentimento. O professor a repreende de forma delicada mas, em meio a um processo de confusão mental, a raiva momentânea da rejeição leva a menina a desabafar seu ódio por Lucas - com alguns detalhes induzindo a ideia de abuso sexual.

    A diretora pede ao professor que tire uns dias de folga. Uma investigação começa a ser conduzida. A notícia se espalha à boca pequena. Não há informações nítidas. A criança sofre pressão para dar respostas. Pronto, o circo está montado.

    Impossível não lembrar de O Processo, clássico da literatura escrito por Franz Kafka. O livro evidenciou uma justiça burocrática e desumana, labirinto no qual ninguém sabe ao certo o que se passa, mas onde o desejo de punição precisa ser levado a cabo. Exatamente a história do bode expiatório na purificação da sociedade.

    Ao contrário da atuação apática em O Amante da Rainha, Mads Mikkelsen está perfeito na pele do professor de personalidade afável, cuja injustiça sofrida inflama a alma com momentos de raiva e desespero. A sutileza e força de interpretação lhe renderam o prêmio de Melhor Ator no último Festival de Cannes.

    Além disso, o dinamarquês está cercado por um elenco notável. Qualquer perspectiva do filme ganha o espectador facilmente, tanto que o faz duvidar de Lucas dependendo de quem comanda a cena. Seja a partir dos olhos de Klara, do filho ou do melhor amigo, o sentimento de cada personagem torna-se uma certeza.

    Assim como todos na comunidade, o protagonista caça cervos por diversão. Interessante notar esse detalhe quando ele passa a ser perseguido por seus semelhantes. Instinto, concepção de grupo e exclusão representam características bem ancestrais. Uma frase dita ao filho em sua primeira caçada consegue traduzir perfeitamente a trama e deixa um desfecho instigante: “Você terá de esperar um pouco, mas os animais voltarão”.