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    A CHAVE DE SARAH

    Belo drama francês sobre o Holocausto se diferencia de tantos outros filmes já feitos sobre o tema<br />
    Por Celso Sabadin
    18/11/2011

    Quatro jornalistas se encontram na reunião de pauta de uma revista parisiense. Um homem e uma mulher de meia idade, um rapaz e uma garota bem jovens. O homem de meia idade propõe uma matéria sobre a violenta deportação de judeus franceses, acontecida em Paris, durante a 2ª Guerra. Os jovens desconhecem totalmente o fato. O rapaz sugere que se busquem em arquivos fotos da deportação, e imediatamente é informado que não há nenhuma imagem sobre isso. Ele estranha: “Como assim? Os nazistas documentavam tudo o que faziam”. A mulher de meia idade intervém: “Você não está entendo. Não foram os nazistas que fizeram isso. Fomos nós mesmos, os franceses”.

    É este viés de “mea culpa” que torna o belo drama francês A Chave de Sarah diferenciado de tantos outros já feitos sobre o tema. Não é “apenas mais um filme sobre o Holocausto”, mas uma dolorida tomada de consciência do infame colaboracionismo francês na 2ª Guerra.

    A jornalista de meia idade é Julia (Kristin Scott Thomas, de O Paciente Inglês), americana radicada em Paris que pesquisa o caso Vel d´Hiv, onde milhares de judeus foram confinados, em condições sub-humanas, no Velódromo de Inverno de Paris, à espera da morte. Enquanto desenvolve sua matéria, Julia toma contato com a terrível história de Sarah, uma menina judia que sobreviveu ao caso. O filme se desdobra alternadamente em dois tempos: nos dias atuais, onde Julia é a protagonista, e em 1942, com o desenrolar do drama de Sarah (magnificamente interpretada por Mélusine Mayance, que também está em Ricky, de Ozon).

    Obviamente, é preciso ser muito coração de pedra para conter as lágrimas. Por mais que saibamos – de antemão – que estamos caindo na conhecida cilada de ver crianças sendo brutalmente arrancadas de suas famílias. Famílias, aliás, que jamais voltarão a ver. Pode-se até classificar o tema como armadilha sentimental, mas fazer o que se tudo aquilo foi verdade? A emoção é inevitável. O diretor Gilles Paquet-Brenner não prima exatamente pela sutileza, e o roteiro, desenvolvido a partir do livro de Tatiana de Rosnay, nos propõe algumas ”coincidências” nem sempre fáceis de serem aceitas. Além da narrativa perder um pouco de fôlego no final.

    Contudo, são problemas menores que se relevam diante da importância do tema. Numa época onde a intolerância contra os “diferentes” (leia-se imigrantes) cresce em proporções violentas, parece ser muito oportuno relembrar – principalmente para os mais jovens, que desconhecem os caminhos da História – os desmandos cometidos em nome de um pensamento radical que varreu parte da sociedade ocidental há não muito tempo. Parece ser muito oportuno traçar um paralelo entre as atrocidades que o tempo preferiu creditar a um único Hitler, como este novo momento intolerante que cresce dentro do Hitler que existe dentro de cada um.

    A Chave de Sarah ganhou os prêmios de Público e de Direção no Festival de Tóquio. Leve lenços de papel.