cineclick-logo
    botão de fechar menu do cineclick
  • FILMES
  • NOTÍCIAS
  • CRÍTICAS
  • LISTAS
  • GAMES
  • © 2010-2021 cineclick.com.br - Todos os direitos reservados

    A CONQUISTA DA HONRA

    Por Celso Sabadin
    22/05/2009

    "A primeira vítima de toda e qualquer guerra é sempre a verdade". A frase - atribuída ao senador norte-americano Hiram Johnson, em 1917 - não só é das mais acertadas como também das mais proféticas. Daquela época até hoje, os governos desenvolveram mecanismos cada vez mais sofisticados para encobrir e deturpar a verdade, principalmente em tempos de guerra. "O Iraque tem armas de destruição em massa" é um dos mais recentes e explícitos ataques à verdade.

    O novo filme de Clint Eastwood, A Conquista da Honra, esmiúça com o talento e a precisão cinematográfica típicos do diretor uma das mais marcantes mentiras bélicas cometidas durante a Segunda Guerra Mundial: a célebre fotografia dos soldados americanos hasteando a bandeira pátria no alto do Monte Suribachi, durante a sangrenta batalha de Iwo Jima. Trata-se de uma das imagens mais marcantes do conflito, na qual cinco fuzileiros e um membro do corpo médico da marinha norte-americana erguem a bandeira que ao mesmo tempo simboliza a tomada da ilha e dá um novo moral a toda a nação. Publicada em vários jornais, a foto se transforma em sucesso instantâneo e é imediatamente capitalizada pelos marqueteiros da época (sim, eles já existiam), que vêm na bela imagem uma oportunidade única de alardear a sucesso das tropas norte-americanas. Porém, ao tentar transformar a fotografia em instrumento publicitário, vêm à tona todas as histórias podres que envolveram o fato, mentiras, injustiças e crueldades que devem ser radicalmente escondidas da população.

    O roteiro é baseado no livro Flags of Our Fathers, publicado em 2000 e escrito por James Bradley e Ron Powers. James é filho de John "Doc" Bradley (vivido no filme por Ryan Phillippe), enfermeiro da Marinha e um dos principais envolvidos no caso da bandeira. O próprio James só ficou sabendo do ocorrido muitos anos após o término da guerra, já que o próprio pai se recusava a tocar no assunto. Assim, a produção opta por não contar a história de forma cronológica e sim em vários níveis de tempo, alternando flash-backs e exigindo do público uma boa dose de concentração.

    Ao final de 130 minutos de projeção, as idas e vindas podem até ter fatigado os olhares da audiência, mas o resultado é extremamente gratificante: A Conquista da Honra é um estudo sobre a manipulação política do homem comum, a falta de escrúpulos que norteia os donos do poder, e sobre a maneira pela qual a mídia se sobrepõe a todo e qualquer tipo de verdade. Tematicamente, lembra bastante Os Eleitos (1983), de Phillip Kaufman.

    Esteticamente, o filme também é dos mais competentes, com uma ótima fotografia dramática de Tom Stern (o mesmo fotógrafo dos filmes mais recentes de Eastwood) utilizando belos e contrastantes tons de azul, cinza e preto.

    Um dos pontos mais interessantes de todo o projeto reside no fato de Eastwood ter se dedicado de corpo e alma à pesquisa histórica, não apenas lendo muito sobre a batalha, como também conversando com veteranos dos dois lados. Tamanha pesquisa resultou num segundo filme que o próprio Eastwood produziu e dirigiu concomitantemente a A Conquista da Honra: Cartas de Iwo Jima, falado em japonês, que conta o outro lado da história.

    Com locações na Islândia, A Conquista da Honra tem custos estimados de US$ 55 milhões e é a produção é assinada a quatro mãos pelo próprio Eastwood ao lado de ninguém menos que Steven Spielberg. Na verdade, quando Eastwood desejou comprar os direitos do livro, foi informado que os mesmos já pertenciam a Spielberg, que, por sua vez, não havia até então aprovado nenhum roteiro que lhe fosse satisfatório. Ambos resolveram se associar no projeto. O nome de Spielberg nos créditos iniciais gera inevitáveis comparações com O Resgate do Soldado Ryan, mas, fora o fato de ambos tratarem de temas relacionados à Segunda Guerra Mundial, cinematograficamente não há muitos pontos em comum. A Conquista da Honra é bem superior ao filme dirigido por Spielberg. Tem mais política, um roteiro bem mais completo, mais elaboração na construção dos personagens, traz um subtexto mais rico e uma direção mais sutil. Talvez por isso não tenha sido um grande sucesso nas bilheterias dos EUA.