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    A CRIANÇA DA MEIA-NOITE

    Longa se concentra na relação entre os personagens e sabiamente evita clichês e o sentimento de piedade
    Por Roberto Guerra
    13/10/2011

    Assim como os dominós enfileirados que caem em cascata numa das cenas iniciais de A Criança da Meia-Noite, os personagens centrais do novo filme da cineasta francesa Delphine Gleize (Estranhas Ligações) estão de tal forma ligados que suas ações e movimentos interferem imediatamente na realidade do outro.

    São eles o médico dermatologista David (Vincent Lindon) e seu paciente Romain (Quentin Challal). Ambos têm uma relação simbiótica que ultrapassa a fronteira médico-paciente e se fundamenta na cumplicidade, criada ao longo de anos, por um jovem esperançoso de se ver curado de uma grave e rara doença e um profissional ciente da impossibilidade de curar, mas dedicado a dar conforto e dignidade a seus pacientes.

    Romain sofre de Xeroderma Pigmentoso, desordem genética que impede o organismo de reparar os danos causados pela radiação ultravioleta. Aos treze anos, tem de evitar por completo a exposição ao sol - sob pena de desenvolver tumores cancerígenos - e ainda convive com a dura realidade de saber ter sido abandonado pelo pai por causa da doença
    .
    É esse adolescente fragilizado e sua relação de amor e cumplicidade com seu médico o mote de A Criança da Meia-Noite, argumento muito bem explorado por Delphine Gleize, que se concentra na relação entre os personagens e sabiamente evita clichês e o sentimento de piedade pelo protagonista.

    A cineasta conduz com destreza a história, sem pressa, e faz seus personagens crescerem aos olhos do espectador com sensibilidade e modéstia, com uma narrativa extraordinariamente sóbria, e provida não só de espontaneidade rara, como ainda de genuína intensidade emocional.

    O filme tampouco é otimista ou aponta qualquer luz no fim do túnel. Os momentos de alegria são raros e o conflito central do roteiro se dá quando David consegue uma vaga na Organização Mundial da Saúde, em Genebra, e não sabe como contar a Romain que precisa ir embora. Uma peça de dominó que cai e que inevitavelmente irá atingir a outra.

    O problema de As Crianças da Meia-Noite está na exploração dos personagens secundários. Os papéis de Caroline Proust (mãe de Romain) e de Emmanuelle Devos (médica substituta do doutor David) são superficiais e, ao contrário dos protagonistas muito bem trabalhados, não ganham dimensão ao longo da projeção. Delphine Gleize não mostra por seus coadjuvantes a paixão que demonstra por seus protagonistas, mas ainda assim oferece ao espectador um trabalho honesto sobre a vida como ela é.