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    A FLORESTA QUE SE MOVE

    Falta de originalidade e tom exagerado atrapalham adaptação
    Por Daniel Reininger
    05/11/2015

    Adaptar Shakespeare é tarefa arriscada, ainda mais quando a ideia é mudar a ambientação para algo moderno. Fica ainda mais complicado quando a intenção é manter o tom teatral e exagerado da peça, algo que, no cinema, costuma não funcionar – e é o que acontece aqui. Ainda assim, Floresta que se Move merece atenção por contar com o retorno de Ana Paula Arósio ao cinema e ser belo visualmente.

    De cara, a abertura chama atenção: ao som de música clássica assustadora, paisagens de europeias ajudam a criar a atmosfera sombria, até que chegamos à imagem de um castelo decadente. Até parece que essa adaptação de Macbeth se passa no século XI, mas não é o caso e o cenário logo muda para o agressivo mundo empresarial.

    Inspirado no clássico Macbeth, A Floresta Que se Move acompanha Elias (Gabriel Braga Nunes), executivo do segundo maior banco do Brasil. Seu destino começa a mudar quando encontra uma misteriosa bordadeira que se diz vidente. Ela afirma que ele se tornará vice-presidente do banco e no dia seguinte seria o novo presidente. Quando Elias conta a história para Clara (Ana Paula Arósio), sua esposa, ela convida o atual presidente do banco para jantar, para que o marido possa subir de posição na empresa. No entanto, o plano arquitetado pelo casal culmina em uma série de assassinatos e numa busca desenfreada por poder.

    Falta originalidade à trama, que conta a história original quase ao pé da letra, sem fazer as adaptações necessárias para o cenário empresarial – que mais parece uma corte de nobres do que algo atual. Exageradamente fiel à peça original, o tom fantasioso em meio a uma trama moderna gera certo estranhamento, especialmente devido ao diálogo pomposo e artificial e trilha sonora forçada para cada decisão maligna. Exageros que podem tirar a atenção do espectador e nos levam a comparações constantes com a obra de Shakespeare, o que não é algo bom para o filme, e não funciona como Muito Barulho Por Nada, de Joss Whedon, que tem a intensão de causar essa estranheza, mas o faz tecnicamente bem.

    Esses problemas ficam ainda mais claros nas atuações. Arósio, que vive papel equivalente ao de Lady MacBeth, exagera no transtorno estampado no rosto e nas falas absurdamente vilanescas, o mesmo acontece com Gabriel Braga Nunes, perdido como protagonista em crise. A direção e a montagem são simplórias e não valorizam o texto, fazendo com que perca a ambiguidade moral, com isso, o longa deixa de criar uma situação plausível e apenas trata os personagens como mocinhos e bandidos clássicos, sem profundidade.

    O roteiro não ajuda e os atores fazem o que podem, mas Nelson Xavier e Ângelo Antônio são os únicos que conseguem trazer alguma naturalidade às falas. Entretanto, cenas reproduzidas ao pé da letra da obra de Shakespeare, como a aparição do fantasma no jantar e a mancha de sangue invisível nas mãos, simplesmente não funcionam e poderiam ter ficado de fora por completo. Era preciso passar as mesmas mensagens com metáforas atuais e não reproduzir a história no cenário atual sem se preocupar em transformá-la em algo, realmente, contemporâneo.

    Além disso, o elemento mais importante do texto original é a complexa relação do poder entre os personagens e esse é o principal ponto ignorado pelo diretor Vinícius Coimbra. Para piorar, a obra exagera ao dar tom épico a cada cena e situação, tornando-as sobrecarregadas, reforçando os problemas de linguagem e construção já comentados e, até por isso, o final desaponta.

    Ao menos, o longa se destaca pelas locações criativas, afinal, a narrativa não está colocada no tempo e espaço de forma clara. As filmagens aconteceram em diversas partes do mundo, para baratear a produção, claro, mas também para permitir essa liberdade. A sede do banco é um monumento em Berlin, a bela casa de Elias fica no Uruguai - cenários criativos e bela fotografia consegue fazer uma casa moderna ter um tom ameaçador ou um escritório empresarial ser retratado como algo sombrio e decadente – que combinam com o tom dado por Coimbra à sua versão.

    No final das contas, Floresta que se Move pode não ser uma grande adaptação, mas, ao menos, funciona como curiosa introdução para quem ainda não conhece Shakespeare.