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    A.I. - INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

    Por Celso Sabadin
    22/05/2009

    É inegável: as pessoas podem gostar ou não gostar, mas assistir a Inteligência Artificial é uma experiência única e diferenciada no cinema. Não raramente o espectador se pergunta: onde é que Steven Spielberg vai chegar? O que foi que Stanley Kubrik pretendeu fazer? As respostas não virão facilmente. Após quase duas horas e meia de projeção, o espectador será brindado com pelo menos uma certeza: a de que viu um filme incomum. Um raro roteiro que não se prende às fórmulas desgastadas que dominam a produção norte-americana.

    Dizer que Inteligência Artificial é sobre um garoto-robô que deseja ser um menino de verdade é pouco. Muitíssimo pouco. O filme é um caldeirão de referências que mistura de Bela Adormecida a Blade Runner. E que não teme passar do drama à ficção, ao romance à aventura e de volta à ficção com impressionante desenvoltura.

    Tudo começou há aproximadamente 20 anos, quando Stanley Kubrick leu o conto "Superbrinquedos Duram o Verão Todo", do inglês Brian Aldiss. O cineasta começou a desenvolver idéias para transformar o texto em filme, rabiscou esboços, e chegou à conclusão que seriam necessários efeitos especiais de uma qualidade ainda não existente no mercado cinematográfico naquele momento. Decidiu então congelar o projeto. Mais recentemente, Kubrick convidou Steven Spielberg para dirigir o que seria o novo filme, reservando para si as funções de produtor. Ambos trocaram muitas idéias e rascunhos do que poderia ser o desenho de produção a ser adotado, mas Spielberg não chegou a dar um "sim" definitivo. Com a morte de Kubrick, em março de 1999, Spielberg decidiu finalmente assumir o controle de Inteligência Artificial. A Amblin, a Dreamworks (ambas empresas de Spielberg), a Warner e a Stanley Kubrick Productions levantaram os US$ 90 milhões necessários à produção, e o roteiro foi assinado pelo próprio Spielberg. Como quase sempre acontece nos filmes dirigidos pelo pai do E.T., a edição ficou a cargo de Michael Kahn, a fotografia com o polonês Janusz Kaminski, e a trilha sonora com John Williams (que desta vez baseou-se claramente na trilha de Blade Runner).

    Sim, o filme é sobre um garoto-robô que deseja ser um menino de verdade. Tudo se situa num futuro não definido, onde o Professor Hobby (William Hurt) expõe todo o seu descontentamento sobre o atual estágio de desenvolvimento dos robôs, criaturas muito parecidas com os humanos - fiscamente - mas incapazes de expressar sentimentos. A idéia revolucionária de Hobby seria criar o primeiro robô criança da história, um pequeno andróide programado para fazer parte de uma família e, conseqüentemente, para amar e ser amado.

    Após alguma polêmica, o casal formado por Henry e Monica (respectivamente Sam Robards, filho de Jason Robards, e Frances O´Connor, de Palácio das Ilusões) decidem finalmente adotar David, o garoto-robõ magnificamente interpretado por Haley Joel Osment, de O Sexto Sentido. Trata-se de uma tentativa desesperada de "substituir" Martin, o filho do casal que se encontra há anos em coma profundo.

    A discussão sobre a tecnologia, a ética da robótica, os problemas de adaptação, a crise existencial de um menino andróide que se identifica com a história de Pinóquio, a crise do casal que o adotou, tudo isso é apenas o começo do filme. A pontinha de um iceberg cinematográfico que revelará cada vez mais surpresas.

    Inteligência Artificial tem o incrível poder de se renovar a cada cena, de surpreender o mais atento dos cinéfilos que acha que já viu tudo sobre o tema. Quando o espectador se prepara para a ficção científica, o filme vira um drama. Quando o drama se aprofunda, ele se transforma numa estonteante aventura. E quando o desfecho parece próximo, o roteiro dá um salto gigantesco. No tempo, no conteúdo, na emoção. As pessoas saem do cinema atônitas. São perguntas e mais perguntas que ficam perambulando pela mente do espectador durante minutos, horas ou mesmo dias após o término do filme. Uma delas chama a atenção: "Você esperaria dois mil anos para ouvir um eu te amo?".

    Justamente por ser diferente e imprevisível, criativo e fora dos padrões, o filme não tem feito nas bilheterias norte-americanas o sucesso comercial esperado. Certamente os devoradores de pipoca que lotam as salas daquele país vão precisar de mais dois mil anos de evolução para atingir um estágio de desenvolvimento que permita a compreensão das questões levantadas por Spielberg.

    Inteligência Artificial é um filme que dá vontade de ver novamente, assim que se acaba de vê-lo pela primeira vez.


    5 de setembro de 2001
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    Celso Sabadin é jornalista e crítico de cinema da Rede Bandeirantes de Televisão, Canal 21, Band News e Rádio CBN. Às sextas-feiras, é colunista do Cineclick. celsosabadin@cineclick.com.br