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    A INVENÇÃO DE HUGO CABRET

    Filme é belamente construído no exterior, mas sem coração e conexão com os sentimentos humanos<br />
    Por Roberto Guerra
    13/02/2012

    A parceria entre o cineasta Martin Scorsese e o designer de produção Dante Ferretti é marcada por trabalhos cênicos estilizados e bem realizados, que mergulham o espectador no universo pretendido pelo diretor. Foi assim com o hospício claustrofóbico de A Ilha do Medo, a Nova York do século 19 de Gangues de Nova York e, agora, a Paris da década 30 de A Invenção de Hugo Cabret.

    No filme a cidade é retratada em tom de fábula com cores ricas e quentes e parecendo iluminada a lamparinas a óleo. Um trabalho de design de produção meticuloso e deslumbrante, rico em detalhes, que quase consegue dissimular a narrativa de pouca coesão, excessos e transição descuidada.

    A despeito de toda badalação em torno da produção - e das inúmeras indicações a prêmios -, a verdade é que A Invenção de Hugo Cabret é um filme no qual a forma se sobrepõe à substância. Uma carta de amor ao cinema que impressiona por seu visual, mas que apresenta inúmeros deslizes na condução, que incluem subtramas desnecessárias, personagens coadjuvantes que pouco têm a acrescentar e, o principal: duas histórias paralelas e não complementares entre si - apesar de seus pontos de ligação.

    A Invenção de Hugo Cabret é divido em grandes blocos de exposição. Nos minutos iniciais toda a bela ambientação citada acima é mostrada com uma varredura panorâmica de uma Paris iluminada seguida de um passeio da câmera pela estação de trem, seus interiores escondidos e as engrenagens de seus relógios. Tudo muito bonito, plasticamente surpreendente, e ressaltado por uma aplicação bem feita do 3D.

    Feita a ambientação – e a apresentação dos recursos visuais que vão acompanhá-lo até o fim da sessão – somos apresentados ao menino Hugo Cabret (Asa Butterfield). Ele mora nas galerias ocultas da estação, sobrevive de pequenos furtos e passa boa parte do tempo tentando evitar as investidas do Inspetor do lugar (Sacha Baron Cohen) e seu cão de guarda. Está ali desde que seu pai (Jude Law) morreu em um incêndio, o que o obriga a viver com seu tio beberrão que cuida dos relógios do local. Tudo o que o pai lhe deixou foi um estranho "autômato", um boneco mecanizado que tentavam consertar juntos.

    Na busca obsessiva por engrenagens que farão o robô voltar a funcionar, Hugo se confronta com um homem velho e amargo (Ben Kingsley) que dirige uma loja de brinquedos. O velho tem uma neta (Chloe Moretz), que leva Hugo a descobrir um componente importante para seu autômato. Daí em diante os dois jovens aventureiros acabam se deparando com um segredo há muito esquecido, que lança nova luz sobre o passado do avô da menina e os levará à história de George Méliès e o nascimento do próprio cinema.

    Neste ponto, apesar dos esforços do roteirista John Logan em trazer unidade para a trama, o filme avança para uma espécie de documentário sobre a história do cinema. Não que isso não seja interessante. Há sequências primorosas, como as que retratam o estúdio de Méliès e o processo de produção de seus filmes, mas a transição é um tanto tacanha. Ao contrário do menino Hugo, o filme nunca encontra a peça que faltava na engrenagem e não consegue atingir o coração do espectador, suas emoções. Prova disso está na cena em que o personagem de Chistopher Lee, um livreiro, dá a Hugo um livro. Ela nada significa, não tem peso emocional e seria totalmente dispensável.

    Nenhuma cena, no entanto, resume melhor A Invenção de Hugo Cabret como aquela em que o menino sonha ter entranhas mecânicas. Ela representa o filme por assim dizer: belamente construído no exterior, mas sem coração e conexão com os sentimentos humanos.