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    A LENDA DE TARZAN

    David Yates não ousa em sua releitura do clássico
    Por Iara Vasconcelos
    14/07/2016

    Tarzan é uma figura mítica representada na telona desde a era do cinema mudo – sua primeira adaptação aconteceu em 1918 - e desde então ele faz parte do imaginário popular. Até por isso, o personagem criado por Edgar Rice Burroughs volta aos cinemas em uma versão moderna, que funciona como uma continuação da história que conhecemos tão bem.

    Em A Lenda De Tarzan, o diretor David Yates (Harry Potter) decide abordar a vida do Rei das Selvas após ele se tornar John Clayton III e estabelecer uma "vida normal" na civilização londrina, ao lado de sua amada Jane. Na trama, ele retorna ao seu antigo lar na selva africana para investigar um esquema de escravidão dos povos nativos pelos europeus, entretanto, ele é caçado pelo respeitado chefe Mbonga (Djimon Hounso), que quer vingança pela morte de um ente querido.

    Como certas coisas não mudam, claro que a melhor forma de atingir Tarzan (Alexander Skarsgård) ainda é colocar sua amada Jane (Margot Robbie) em perigo. Começa então uma intensa corrida contra o tempo para salvá-la dos mercenários e desmantelar o esquema de escravidão, ao mesmo tempo em que Tarzan precisa acertar as contas com Mbonga. Para isso, contará com a ajuda de George Washington Williams (Samuel L. Jackson), um ex-combatente da guerra civil que deseja se redimir pelos males causados aos nativo-americanos.

    + Exclusivo: Alexander Skarsgård, o Tarzan, fala de beijo gay em entrevista exclusiva

    O roteiro tem um grande problema. Parece assumir que todos conhecem à fio a história original e não se preocupa em contextualizar o passado do personagem. Não se sabe o motivo que leva Tarzan a não querer retornar ao lugar onde cresceu e o que é mostrado nos flashbacks não é suficiente para responder essas questões. Além disso, tenta abordar o tema do colonialismo, mas o faz de forma condescendente, reforçando a figura eurocêntrica do salvador da Pátria.

    Falando no protagonista, ele deveria dominar todas as cenas em que estivesse presente, mas a performance de Skarsgård é muito contida. O sueco pode até ter alcançado a forma física perfeita para interpretar o protagonista, mas está longe de representar o espírito indomável pelo qual o personagem é reconhecido, mas isso pode ser explicado pela sua "domesticação" no início do filme.

    Enquanto isso, a Jane de Margot Robbie surge com um tom a mais de rebeldia, tentando fugir da figura de "dama em perigo", mesmo que essa seja sua função durante todo o filme. Ao menos, ela enfrenta os vilões com golpes ligeiros e tiradas irônicas. Já o personagem de Samuel L. Jackson se limita, mais uma vez, a ser o coadjuvante desprovido de profundidade, aquele cara que serve apenas para salvar o companheiro das encrencas e proporcionar alívio cômico nos momentos mais enfadonhos da história.

    Christoph Waltz acerta na dose de vilania do Capitão Rom, que varia entre a soberba extrema e o amadorismo. Para quem dizia que o ator só brilhava sob a direção de Tarantino, esse personagem prova o contrário.

    O principal mérito de A Lenda de Tarzan é a forma como Yates soube explorar bem os cenários naturais do Congo, principalmente em imagens aéreas, transmitindo ao espectador a real sensação da natureza viva e visceral. Isso faz com que com que as experiências em 3D e Imax sejam bem prazerosas, mas nem isso é capaz de salvar o enredo pouco inspirado e superficial.

    A Lenda de Tarzan vai pelo caminho mais seguro e não ousa em sua releitura do clássico. O filme possui a quantidade de ação e humor suficientes para entreter o espectador, mas não chega a ser particularmente marcante.