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    A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS

    Adaptação não captura a essência da obra literária
    Por Daniel Reininger
    28/01/2014

    A esperada adaptação cinematográfica do best-seller A Menina que Roubava Livros não captura a essência da obra literária. A poderosa ambientação perde força com retrato débil dos horrores da Segunda Guerra Mundial, amenizados pelo diretor Brian Percival para tornar o longa atrativo aos mais jovens. Incapaz de transmitir a ironia da vida pela visão da Morte, o que sobra é apenas uma sombra da história criada por Markus Zusak.

    Narrada pelo próprio Ceifador e ambientada na Alemanha nazista, a trama segue a jovem Liesel (Sophie Nelisse), filha de comunistas que é adotada por Hans (Geoffrey Rush) e Rosa (Emily Watson), após a morte de seu irmão. Analfabeta, a garota aprende a ler com seu novo "papa" e encontra conforto nas palavras escritas. Sem opção, ela começa a roubar e compartilhar livros e, aos poucos, também passa a escrever com o incentivo de um jovem judeu que a família esconde no porão.

    Acompanhar a Segunda Guerra Mundial pelos olhos de Liesel custa caro ao filme. Fome, desemprego e holocausto parecem fatos distantes e os momentos que tentam mostrar o tema mais explicitamente não causam o impacto necessário. Diferente do livro, o longa-metragem evita cenas fortes para agradar ao público infanto-juvenil, porém a linguagem não combina com a forma como a narrativa é conduzida, cujo ritmo lento pode se mostrar um desafio para os mais jovens, que estão acostumados com agilidade.

    Em contrapartida, o roteiro faz bem ao eliminar alguns personagens e subtramas sem comprometer a essência da história. Os principais momentos da vida de Liesel estão lá e é mérito do diretor Brian Percival mostrar adversidades e conquistas sem forçar a barra todo o tempo para criar momentos emotivos.

    O problema do texto é a mistura de inglês com alemão nos diálogos. Embora o livro utilize esse recurso para destacar certas palavras que têm significados específicos, é algo que fica estranho na tela. Se os personagens estão na Alemanha que falem alemão ou assumam logo a língua de Hollywood, afinal o espectador entenderia essa decisão como meio para facilitar as coisas. É incomodo ouvir palavras ou mesmo diálogos em alemão aparecerem jogados em meio a falas em inglês com sotaque.

    O elenco compensa essa falha muito bem. Geoffrey Rush é conhecido por personagens extravagantes e aqui prova ser habilidoso também ao interpretar o homem comum. Ele é o principal responsável pela doçura e humor do filme. Emily Watson também está perfeita como mulher dura que esconde seu lado sensível. Ela enfrenta muito bem o papel clichê, sem transformá-lo em algo caricato. A protagonista Nelisse combina com Liesel, marca pelo olhar expressivo e conduz a trama com competência.

    Além disso, a impecável direção de arte reproduz com detalhes os anos 30 e 40. A ambientação é reforçada com a fotografia sombria e tomadas abertas. A trilha de John Williams, que volta a trabalhar com outro diretor além de Steven Spielberg depois de muitos anos, complementa as cenas, sem exageros. Entretanto, a produção falha ao manter as crianças exatamente iguais ao longo de cinco anos e poderia ter sido feito trabalho melhor de maquiagem.

    A Menina que Roubava Livros fala sobre a vida e amizade, mesmo que alivie questões pesadas que aprofundariam o enredo. Não é um grande filme, especialmente comparado a outros contos sobre o conflito, mas ao menos tenta mostrar Liesel como luz num mundo (não tão) escuro, cuja vontade de superar desafios chama a atenção da Morte. Apesar das falhas, fãs e curiosos certamente sairão da sala com olhos marejados e com vontade de ler (ou reler) o livro.