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    A NEGOCIAÇÃO

    Filme apresenta personagem complexo e mexe com a concepção do espectador sobre moralidade
    Por Roberto Guerra
    19/12/2012

    Mais do que tentar saber o que acontecerá com o protagonista desse filme ao final da trama, o espectador de A Negociação é levado a refletir sobre o que faria se estivesse passando pela mesma situação. A tensão deste longa não está na tela, mas dentro de nós mesmos. Julgar os atos de Robert Miller (Richard Gere) não é tarefa fácil. Este personagem bem construído pelo roteiro do também diretor Nicholas Jarecki é a representação da desfaçatez. Seu cinismo, no entanto, não está na superfície. É uma das camadas de sua labiríntica personalidade.

    Começamos a nos enredar na dualidade moral deste indivíduo aos poucos. Depois de uma vida dedicada ao trabalho, Miller conseguiu juntar uma pequena fortuna com a empresa de investimentos que comanda. Voltando de uma de suas viagens de negócios, comemora com a família seu aniversário de 60 anos. A cena evoca a felicidade de se estar entre seus pares.

    Depois de soprar as velinhas, Miller exalta o valor da família. Parece lamentar os anos perdidos em sua rotina estafante de trabalho. Sua ideia é vender o império que construiu, se aposentar e passar mais tempo ao lado da família. Ao saber dos planos do pai, a filha Brooke (Brit Marling), uma das executivas da empresa, questiona o que farão juntos fora do ambiente corporativo. Temos aqui o primeiro sinal de que a prosperidade financeira dessa família tenha custado um preço alto demais.

    Outras indicações virão. Uma delas logo em seguida, depois de Miller abandonar a comemoração alegando à mulher Ellen (Susan Sarandon) – ela cuida das ações filantrópicas da empresa -, ter de ir ao escritório resolver alguns problemas. Os dois se despedem em clima romântico e com a promessa de uma noite quente quando ele voltar. Voltamos a ter a percepção de que há amor permeando essas relações. O executivo, no entanto, não está indo para o escritório.

    Jarecki conduz sua trama pontuando-a de momentos que se contradizem. Em suas atitudes, Miller se apresenta com a complexidade típica de um ser humano. A transação de venda de sua empresa esconde um segredo e existe um duelo de enxadristas entre ele e o possível comprador quanto a isso. E o interessante é notar que no alto mundo corporativo é possível que o xeque-mate de um não signifique a derrota do outro. E se todos saem ganhado, que mal há em agir de má fé?

    Em dado momento da trama temos uma reviravolta. Um acidente de carro deixa um morto e complica a vida de Miller. Ele deixa o carro e foge. Poderia não ter feito isso. Não é culpado de nada. Mas seus negócios e sua vida pessoal dependem de não estar ali, de não estar envolvido no desastre. E não se engane: alguém que ascendeu ao ponto de um rico homem de negócios não chegou lá à toa. Miller fará o possível para dissociar seu nome de tudo aquilo e concluir seus intentos.

    Até onde ele pode chegar e o quanto de moralidade ainda corre nas veias desse homem o público vai descobrir no desenrolar do filme. Atrás de seus propósitos, Miller acaba prejudicando Jimmy (Nate Parker), filho de um antigo parceiro de negócios, sua filha e a mulher. Um policial interpretado por Tim Roth vai tentar incriminá-lo, mas mesmo este personagem não funciona como um contraponto à suposta imoralidade de Miller. Se podemos questionar a decência do empresário, podemos também refutar o caráter do policial.

    Este é o grande mérito de A Negociação. Neste filme não há heróis e vilões. No final das contas, todos agem movidos por seus interesses e necessidade de autopreservação. E quem poderia condenar Miller? No filme, ninguém. Para quem está do outro lado da tela, sentado na poltrona, fica difícil também.