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    A PARTE DOS ANJOS

    O estilo de Ken Loach ainda funciona, porém o seu fiel público deve sentir falta de um tom mais politizado na história.<br />
    Por Paulo Cintra
    05/03/2013

    O britânico Ken Loach não costuma inovar em suas produções. Fiel à mesma fórmula que lhe rendeu sucesso há 30 anos, o diretor continua investindo em um cinema político recheado de humor pastelão. A Parte dos Anjos não foge à regra e é, acima de tudo, um filme divertido.

    Ambientado totalmente na Escócia, o longa usa e abusa das brincadeiras com os estereótipos locais, ao mesmo tempo em que apresenta problemas sociais ao espectador. O sobrepeso, o sotaque, a paixão pelo álcool e até o tradicional Kilt são satirizados a todo momento.

    O roteiro é baseado em um destes temas: o uísque. A bebida é o que une todos os personagens, que são apresentados um a um, logo de início. Todos são jovens julgados por pequenos delitos e sem aptidão alguma, nem para o crime. Retrato de uma sociedade em crise, eles são condenados a realizar trabalhos comunitários, ao mesmo tempo em que precisam tirar suas vidas do buraco.

    O protagonista é Robbie, bem interpretado por Paul Brannigan. Uma mistura entre Renton, o viciado magrelo de Trainspotting, e Matt Buckner, o baixinho bom de briga em Hooligans. Do elenco secundário, destaque para Albert, um completo excluído do sistema que tem uma única função aqui: fazer o público rir.

    A trama ganha sentido graças a Harry, o responsável por supervisionar os jovens, que decide dar alguma esperança às suas vidas. Ele os leva para conhecer como a bebida é produzida e os introduz ao milionário mundo da degustação e dos colecionadores.

    É neste momento que entende-se o título da produção: A Parte dos Anjos nada mais é do que uma pequena parcela que, misteriosamente, evapora dos barris ainda fechados. Cerca de dois por cento do líquido some anualmente sem explicação alguma. Os escoceses dizem que esse conteúdo vai para os anjos e que não é necessário buscar uma lógica para o processo. Para os brasileiros, seria algo semelhante ao tradicional “gole para o santo”.

    Com essa premissa, o grupo planeja roubar uma pequena parte de um raro uísque que será leiloado, vendê-la e colocar suas vidas no eixo. Apesar de bem bolado, o enredo é altamente previsível, não existem surpresas, apenas muitas passagens mal explicadas. No entanto, as boas piadas e o clima intimista ajudam a superar estes buracos.

    Não se pode usar a falta de sintonia como desculpa pelas falhas da trama, afinal a parceria entre o diretor e o roteirista Paul Laverty é de longa data, juntos já produziram mais de dez títulos. Aliás, antigos conhecidos não faltam em A Parte dos Anjos, mais da metade do elenco já havia trabalho com Loach em outros momentos.

    Fica claro que o seu estilo ainda funciona, porém o fiel público pode sentir falta de um tom mais politizado na história, apesar das críticas sociais estarem presentes. Não é o Ken Loach engajado de Pão e Rosas, ou o inspirado de Sweet Sixteen, mas é sem dúvidas uma grande evolução em relação ao seu último trabalho, o fraco Rota Irlandesa.