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    A PELE DE VÊNUS

    Grandes personagens e diálogos fazem desse filme algo imperdível
    Por Daniel Reininger
    23/09/2015

    Em A Pele De Vênus, Roman Polanski volta a tratar de jogos psicológicos em ambientes claustrofóbicos. Para isso, o cineasta não adapta o livro sobre obsessão sexual de Leopold von Sacher-Masoch, que deu origem à palavra Masoquismo, mas sim leva às telas a peça criada por David Ives, sucesso da Broadway em 2010, na qual um diretor de teatro pretende levar a trama aos palcos, porém, enfrenta problemas para escalar sua Vênus. Com tom sarcástico até o fim, o longa brilha, principalmente, graças a Emmanuelle Seigner, esposa do diretor, que domina a tela com desempenho cômico e sensual que faz plena justiça ao exigente papel principal.

    No livro, Severin é um homem que se torna escravo sexual da mulher que ele idolatra: Vanda. Assim nascia o primeiro o romance "masoquista" da história. Na adaptação vencedora do Tony, maior prêmio do teatro norte-americano, David Ives concentra sua história em torno de um longo diálogo entre o arrogante diretor da peça (Mathieu Amalric) e a misteriosa atriz (Emmanuelle Seigner) durante um teste para escolha do elenco.

    No filme, Thomas (Amalric) está no fim de um dia improdutivo de audições quando a última candidata aparece (Seigner) encharcada da chuva e atrasada. Ela afirma se chamar Vanda, assim como a personagem , mas seu visual fetichista e jeitão informal não o convencem de que ela possa ser ideal para o papel de uma dominatrix de classe alta do século 19.

    Estranhamente, o nome da mulher não está na lista de candidatos, porém ela insiste e, finalmente, Thomas concorda em deixá-la ler o texto em meio ao cenário do faroeste, repleto de elementos fálicos. Polanski, sempre mestre da tensão em espaços pequenos, cria um ambiente menos opressor do que fez em Deus Da Carnificina, mas isso não impede que o cineasta e elenco capturem com maestria as mudanças de tom e perspectiva da situação.

    A narrativa é basicamente uma deliciosa e inteligente batalha de egos. Logo fica complicado afirmar quem está no comando da situação. Vanda manipula Thomas, que a tenta manipular de volta, mas a mulher claramente sabe muito bem o que está fazendo desde o momento em que entrou pela porta. Logo fica difícil separar personagem e atriz. O papel é perfeito para Seigner que a interpreta de forma enérgica, bastante engraçada e, até mesmo, arrepiante.

    Seigner enfrenta o desafio de fazer uma atriz interpretando um personagem que pode, ou não, ser uma deusa rejeitada e disfarçada. Ela se move habilmente entre as diversas camadas de Vanda e convence tanto como aristocrata do século 19 quanto como feminista contemporânea que insiste em interromper o teste para comentar o texto de Sacher Masoch. Afinal, enquanto Thomas chama sua peça de "uma bela história de amor", Vanda, sem rodeios, afirma ser um conto S&M pornô com uma pitada de abuso infantil. A reação de Thomas a essas críticas parece o desabafo de Polanski para aqueles que insistem em ver questões sociais a cada trabalho artístico – embora analisar essas questões seja parte do papel do crítico.

    Mas é o tom bem-humorado e sensual que predomina em A Pele de Vênus e a trilha-sonora sugestiva do ganhador do Oscar Alexandre Desplat ajuda a compor o tom da obra. Crédito também para o designer de produção e fotografia, pela habilidade de criar um ambiente multidimensional e repleto de ângulos dramáticos a partir de um espaço tão pequeno. Com jogos de luz e uso inteligente do cenário, diferentes noções de realidade podem ser evocadas graças ao conjunto perfeito de atuação, direção e ambientação.

    Novamente Polanski prova que bons personagens, diálogos bem escritos e grandes atuações são os principais elementos para a criação de obras-primas do cinema. Por isso, fica a dica: corra para assistir sua nova produção.