cineclick-logo
    botão de fechar menu do cineclick
  • FILMES
  • NOTÍCIAS
  • CRÍTICAS
  • LISTAS
  • GAMES
  • © 2010-2021 cineclick.com.br - Todos os direitos reservados

    A PELE QUE HABITO

    Filme de Almodóvar sobre vingança, amor, ódio e os limites éticos da ciência é um brinde à criatividade <br />
    Por Roberto Guerra
    31/10/2011

    Pedro Almodóvar é um cineasta corajoso. Aclamado, reconhecido, premiado, poderia trabalhar em sua zona de conforto e desfrutar os louros da fama estabelecida reciclando o que vem fazendo, e muito bem, ao longo de sua carreira. Ousado, preferiu arriscar-se. Em seu novo longa, A Pele Que Habito, chega ao paroxismo da mescla de gêneros levando às telas um filme angustiante, doentio, terrível em alguns momentos, mas com narrativa extraordinariamente sóbria, espontânea, e de uma genuína intensidade criadora.

    A Pele Que Habito é um filme diferente na cinematografia do diretor, mas indiscutivelmente um Almodóvar. Estão lá suas obsessões com traição, solidão, identidade sexual e morte. Os planos almodavarianos, os close-ups e as cores - estas mais sombrias - estão lá. A estes elementos típicos de seu cinema, o cineasta acrescentou um misto de ficção científica e horror. Uma amálgama tão complexa, um híbrido tão instável, que somente alguém talentoso como ele poderia ter misturado tais elementos sem criar uma bomba.

    A história improvável traz Antonio Banderas como uma espécie de Dr. Frankeinstein, um cientista louco e obstinado, um bem-sucedido cirurgião plástico que, após a trágica morte de sua esposa (que teve o corpo inteiramente queimado em um acidente), parte em busca de uma “pele perfeita”, que poderia tê-la salvado. Sem limites em sua insaciável busca, é capaz de tudo para realizar sua façanha científica. Como os médicos loucos do cinema clássico, recorre a expedientes que variam do questionável ao simplesmente atroz para alcançar seus propósitos. A ‘pele que habito” do título tem diversos sentidos na narrativa, sendo tanto a pele literal quanto a noção metafórica de identidade pessoal.

    Abarcar o filme num simples texto crítico é tarefa complexa diante da grandiosidade da obra. O filme transita pela ficção científica e o cinema de terror dos anos 1930 em uma trama densa, repleta de melindres, que oferece novas aberturas e pontos de vista dependendo da perspectiva de quem observa, criando um clima essencialmente dúbio que remete ao cinema noir e seus personagens fracos e moralmente ambíguos.

    Ao longo do filme, Almodóvar vai e volta no tempo construindo a historia de forma que as emoções do espectador fiquem sempre no ar, na expectativa do que pode acontecer no momento seguinte. É notável o domínio do diretor sobre o espaço cênico e sobre os limites de seus atores. Temos um Antonio Banderas impecável e seguro no papel do doutor Robert Ledgard. A bela atriz espanhola Elena Anaya, por sua vez, é uma revelação no papel principal. Um deleite visual explorado em série de belíssimos close-ups no quais se revela por meio de olhares entre resignados e selvagens.

    É fascinante ver Pedro Almodóvar, que criou uma estética narrativa própria e se estabeleceu ao longo de anos como um dos grandes cineastas de seu tempo, reinventar-se e apresentar algo totalmente diferente. Seu filme sobre vingança, amor, ódio e os limites éticos da ciência é um brinde à criatividade e ao domínio da técnica cinematográfica.

    É possível que muitos fãs do diretor se sintam desconfortáveis com esta obra estranha, este suspense sombrio e distante do universo tradicional do diretor, sem tanto senso de humor, sem lágrimas. Por outro lado, é impossível sair indiferente de uma sessão de A Pele que Habito.