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    A REDE SOCIAL

    David Fincher comanda misto de cinebiografia com retrato de geração web 2.0 <br />
    Por Heitor Augusto
    22/11/2010

    Senhoras e senhores, David Fincher vos apresenta o Cidadão Kane versão Século 21 - claro, com todas as fraquezas de um filme feito com a linguagem cinematográfica já consolidada. A Rede Social é um misto de cinebiografia de Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, e retrato fugaz da geração web 2.0, com várias sobras e influências da obra-prima de Orson Welles.

    Fazendo as devidas observações, Fincher nem de longe filma tão bem quanto Welles ou sequer realizou algo contestador e divisor de águas do cinema como é a produção de 1941. Mesmo assim, é direta a relação entre o empreendedor nerd do online e o magnata do impresso.

    A Rede Social parece ser um filme sobre internet, como ganhar dinheiro, o mundinho codificado de Harvard, a desonestidade humana etc. Não passam de aparências, pois, em sua base, Fincher nada mais fez do que contar a história de um gênio da tecnologia – e inepto para relações presenciais – que só queria ser amado. Uma criança em corpo de adulto que fica chamando a atenção e destruindo os seres humanos ao seu redor. Menino mimado que criou um brinquedinho.

    Essa criatura odiosa construída no filme, Mark Zuckerberg, é o bisneto cinematográfico do não menos odioso Charles Foster Kane: a Rosebud de Kane é o Facebook de Zuckerberg.

    Passando por essa introdução comparativa, A Rede Social não deixa de fazer suas próprias escolhas. A principal delas é a tentativa em unir harmonicamente “o que” se fala com “como” se fala. Um personagem de mente frenética para um filme convulso e delirante. A maneira que essa escolha se manifesta ao longo do filme é o ingrediente mais apreciável do longa.

    No enredo, Zuckerberg levou um fora da namoradinha, ficou bravo e, para descontar sua raiva com o mundo, criou um recurso para comparar a beleza (ou falta dela) dos estudantes de Harvard, o Facemash. Pronto, a rede da universidade travou, o menino foi convidado por dois alunos ricos para criar uma rede social inovadora. Meses depois, o Facebook entrou no mapa e Zuckerberg, além de ganhar o mundo, começou a acumular sua lista de inimigos.

    O que acontece na história do filme ou o panorama dessa geração tecnológica não são grandes novidades: transfere-se o relacionamento social tête-à-tête para a esfera virtual, dilatada, simultânea e, por vezes, vazia. Como ilustra o diálogo, “emular completamente a experiência social da faculdade e colocá-la online”.

    Mas, no filme de David Fincher, o “como” se conta é mais importante do “o que”. Jesse Eisenberg acelera a velocidade de sua fala e reproduz a organização ligeira da mente de seu personagem, Zuckerberg. A organização plano/contraplano usa cortes rápidos para emular a maneira que o personagem enxerga o mundo. A trilha pesada nos introduz aos poucos nas decisões equivocadas do protagonista. Em suma, A Rede Social lança mão do que o cinema possibilita, com destaque para os diálogos ágeis escritos por Aaron Sorkin (Jogos do Poder) e especialmente a montagem de Kirk Baxter e Angus Wall.

    A dupla embaralha a noção de passado, presente e futuro, intercalando a forma de contar: o espectador acompanha uma história que se passou há seis anos. Já para os personagens, o presente é 2004, enquanto o passado é 2003. A montagem faz divertidas brincadeiras em forma de discretos flashbacks.

    Com David Fincher seguro na direção, A Rede Social se vende como um filme que retrata uma geração, mas chega a seus principais momentos quando assume sua tentativa de falar de um gênio odioso. Tanto que a melhor e mais sutil cena é quando Zuckerberg repete, quase que automaticamente, o gesto desastroso de jogar a garrafa de cerveja para uma garota, em vez de levar a bebida até ela.

    Isso é o Mark Zuckerberg do filme: um gênio das máquinas e um ser nojento nas relações humanas.