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    A TENTAÇÃO (2011)

    Entre os méritos do filme está o fato que conseguir manter o clima de tensão, algo essencial em um <em>thriller</em><br />
    Por Roberto Guerra
    05/08/2012

    Uma consulta médica revela a um homem casado sua esterilidade. Ele sempre foi assim, portanto, não é pai de seus dois filhos. Ele é o detetive Hollis Lucetti (Terrence Howard) que, pouco tempo depois de receber a “bomba”, tem de lidar com um suicida que ameaça saltar de um edifício. Dia difícil para Lucetti, mesmo porque o homem prestes a se matar não é um deprimido comum. Jovem, bonito, inteligente e bem empregado, Gavin Nichols (Charlie Hunnan), aparentemente, não tem nenhum motivo para dar cabo da vida. Mas ele precisa pular e tem hora marcada para isso.

    É assim que o cineasta Matthew Chapman fisga rápido o espectador em A Tentação. E, de fato, neste ponto do filme tudo o que você quer saber são as circunstâncias que levaram aquele homem para o topo do prédio. Uma série de flashbacks começa, então, a desenhar a trama que envolve Gavin, gerente de um hotel, com Shana (Liv Tyler), funcionária recém-contratada por ele e por quem se encanta. O problema é que a moça é casada com Joe (Patrick Wilson), um fundamentalista religioso que entra em choque com o chefe da mulher, um ateu convicto. Este resolve ignorar o nono mandamento, o de não cobiçar a mulher do próximo, e o castigo, mesmo que nada divino, recai sobre ele.

    Chapman dedica o filme ao tio Dick Chapman, gay assumido que, ao longo da vida, foi vítima de preconceito por sua condição de homossexual. Ainda criança, o diretor diz ter percebido que todo esse ódio era advindo ou embasado por conceitos bíblicos. Por isso, decidiu confrontar radicalismo religioso e razão em seu filme. Joe, o personagem que representa a crença religiosa intolerante, condena o homossexualismo (cuja personificação no filme é Chris, amigo que divide o apartamento com Gavin), não bebe, não fuma e acredita piamente que somente ele e mais meia dúzia de "abençoados" vão para o céu. Todo o resto está condenado ao inferno, a não ser que se converta, claro. Em suma, Joe é o típico fanático religioso que não se contenta em apenas crer, quer também “salvar almas”. Naturalmente, o choque é inevitável entre seus pensamentos e os de Gavin, ateu que enxerga o mundo de forma racional. O embate que, a princípio, se resume a conversas acaloradas, tomam outro rumo quando Gavin resolve "salvar" a mulher de Joe de suas ideias radicais.

    Entre os méritos de A Tentação, está o fato que conseguir manter o clima de tensão do começo ao fim, algo essencial em um thriller. E o mais notável é que Chapman consegue isso mesmo não dando ao espectador nenhum personagem por quem de fato torcer. Apesar de Joe ser um fanático com tendências psicopatas, o diretor não transforma Gavin e Shana nos mocinhos. Ele não hesita em destruir o casamento da funcionária, mesmo sabendo das consequências. Ela, por sua vez, não tem a melhor das atitudes com o marido com quem tem uma dívida de gratidão.

    O filme carrega problemas evidentes na elaboração dos diálogos e na exploração da temática razão versus religião. Algumas sequências entre Joe e Gavin discutindo suas crenças soam quase didáticas, pouco informais, e cheias de lugares-comuns. É como se os personagens recitassem e não conversassem. Outro problema é que Gavin não é retratado apenas como um ateu comum, alguém que não acredita em Deus simplesmente porque não há evidências de sua existência. Ele parece revoltado com o Todo-poderoso, talvez por ter sido vítima de uma tragédia pessoal, de se sentir injustiçado, como se houvesse a necessidade de embasar a descrença dele.

    Apesar do bom desempenho de Terence Howard, a subtrama que dá início ao filme e começa este texto, sobre o policial estéril, se encaixa mal na trama e, ao longo do filme, parece sobrar, nos desviando do que realmente interessa: o embate entre razão e religião. Este, por sua vez, ameaça por vezes se aprofundar, mas fica só na ameaça. Ainda sim, mesmo que inconsistente, A Tentação explora alguns aspectos interessantes da religião e sua oposição, num filme original o suficiente para agradar o espectador interessado em fugir das bobagens sem substância em cartaz por aí.