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    ABUTRES

    Com ótima interpretação de Ricardo Darín, cinema de Trapero chega ao auge criativo<br />
    Por Heitor Augusto
    17/11/2010

    Existe um magnetismo em como o terreno dos filmes de Pablo Trapero, desde o mediano Família Rodante, é construído. O segredo no cinema do argentino é apresentar e constatar um cenário, sem muitas explicações dos porquês. Em Abutres, não se tece uma teoria sobre a ausência do Estado que permite a atuação de uma estrutura mafiosa. É assim e acabou. Não se busca o culpado, mas como uma pessoa envolvida até a lama conseguirá se livrar.

    A corrupção está lá, assim como os mafiosos à argentina. Também está lá o principal carancho, ou carcará, que “pega, mata e come”: Sosa (Ricardo Darín), um advogado que vive de se apropriar de indenizações de cidadãos sem informação e desviar o dinheiro para fins escusos. Um carcará simpático, convenhamos, com charmosos olhos verdes, que tem suas razões honestas para trapaças desonestas.

    Abutres mostra um cineasta que faz um uso maduro da escrita cinematográfica para introduzir o espectador num mundo que não permite impunidade aos que querem deixá-lo. De fato, olhando para o percurso de Trapero desde seu primeiro longa-metragem, Mundo Grúa (1999), fica até difícil imaginar para onde seu cinema ainda pode caminhar e se expandir. É provável que se mantenha médio e bem executado.

    Mas, voltando a esse thriller, não se pode negar que ele logra o que almeja: capturar a quem assiste, transmitir com boa mise en-scène e trabalho de câmara a sensação de labirinto que circunda os personagens, contar uma história de amor entre o carancho Sosa (Ricardo Darín) e Lujan (Martina Gusman) e dissertar como a desgraça alheia é fonte de renda de um grupo.

    Mesmo com tudo isso, com o cinema bem feito de Pablo Trapero e as interpretações precisas e dedicadas de Darín e Gusman, Abutres carece de profundidade. Falta um pouco daquele sentimento depois da sessão que filmes como Bróder, de Jeferson De, que trabalha com temática parecida, consegue.

    Abutres reitera o já conhecido. Em 1972, Francis Ford Coppola fez uma obra-prima sobre a máfia, O Poderoso Chefão, e 18 anos depois, Martin Scorsese colocou sua energia destrutiva em Os Bons Companheiros. Voltando ainda mais no tempo, Elia Kazan com Sindicato de Ladrões (1954) vai mais fundo nas questões humanas atravessadas pelo Sosa de Abutres.

    Reconhecer a linhagem à qual esse filme pertence não invalida, de maneira alguma, o prazer cinematográfico que é assistir a essa nova produção de Trapero. Ainda mais que, na última sequência, o filme correu o risco de mergulhar seriamente no espetáculo vazio de soluções mirabolantes para seus personagens, mas felizmente foge de suas armadilhas.

    Afinal, numa estrutura cíclica, quem está por baixo quer derrubar o de cima; quem está por cima quer manter sua posição; enquanto isso, quem está de fora rouba o lugar e a vida segue. Carcarás devoram carcarás infinitamente. Abutres está aí para reafirmar isso, sem rodeios, mesmo que seus avôs cinematográficos já tenham descoberto e representado isso.