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    ADAPTAÇÃO

    Por Celso Sabadin
    22/05/2009

    Se você acredita que não consegue se adaptar a um tipo diferente de cinema, sem as fórmulas prontas do produto hollywoodiano, é melhor você não assistir a Adaptação, o novo trabalho de Spike Jonze (o mesmo diretor de Quero Ser John Malkovich). Para curti-lo, é necessária uma certa dose de desprendimento, baixar a guarda, e estar aberto às elucubrações de um filme diferenciado, em se tratando de produção norte-americana.

    A trama mostra o roteirista Charlie Kaufman (Nicolas Cage) diante de um bloqueio criativo. Ele não consegue cumprir a promessa de adaptar para o cinema o livro O Caçador de Orquídeas, escrito por Susan Orlean (Meryl Streep). Este pano de fundo convencional na verdade é apenas o ponto de partida para que o filme abra fogo contra os padrões pré-estabelecidos de Hollywood e sua indústria de enganos. Nada é o que parece. Tudo é um caldeirão de ilusões. O supostamente caipirão e ladrão de orquídeas John Laroche (Chris Cooper, quase irreconhecível sem os dentes da frente) na verdade é um conquistador astuto que sabe como viver a vida e tem até tempo para vender drogas alucinógenas (outra referência ao ilusório). A supostamente sofisticada escritora nova-iorquina Susan Orlean, na verdade, mostra ter bem menos escrúpulos - e classe - do que parece. Teoricamente, o gênio da família Kaufman seria Charlie, roteirista de sucesso, mas Hollywood acaba mesmo abrindo suas portas para seu irmão gêmeo Donald (também interpretado por Cage), que teoricamente seria o fracassado da família. E fechando este jogo de ilusões, o filme que a princípio abomina o clichê da correria e da perseguição hollywoodiana, termina em correria e perseguição hollywoodiana.

    Merecidamente indicado ao Oscar da categoria, o roteiro de Adaptação foi escrito por ninguém menos que Charlie Kaufman. Sim, ele existe (e não é Nicolas Cage). Não apenas Charlie, como a escritora Susan Orlean, e todo o caso da adaptação do livro O Caçador de Orquídeas. Que também existe na vida real. Esta mistura de realidade, ficção e muita metalinguagem é um dos charmes do ótimo roteiro que não se poupa de críticas e autocríticas. Não deixa de ser divertida a cena em que Charlie, constrangido, se matricula num curso de roteiros cinematográficos que ensina exatamente os clichês que ele próprio abomina. E que o roteiro de Adaptação - escrito pelo Charlie verdadeiro - use e abuse da narração em off, ferramenta execrada pelo "professor" do curso.

    Em meio a tantas referências, citações e metalinguagem, o auge do jogo de ilusões do cinema não poderia ser mais significativo: Donald Kaufman, o irmão gêmeo de Charlie, está concorrendo ao Oscar de roteiro por este filme. Mas Donald não existe. Ele consta nos créditos, mas o personagem é pura invenção de Charlie. Pode ser a primeira vez que o Oscar de Melhor Roteiro seja entregue a um personagem meramente ficcional. E por que não? Não é toda a Academia de Hollywood uma grande mentira?

    19 de fevereiro de 2003

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    Celso Sabadin é jornalista e crítico de cinema da Rádio CBN. Às sextas-feiras, é colunista do Cineclick. celsosabadin@cineclick.com.br