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    ALEMÃO

    Não falta tensão neste legítimo thriller policial nacional
    Por Roberto Guerra
    11/03/2014

    Por muito tempo o Brasil desprezou o chamado cinema de gênero por sua associação inevitável com a produção hollywoodiana. Era coisa política mesmo, de resistência hostil a tudo que tivesse relação com o produto americano. Os filmes dessa época eram invariavelmente realistas e quase que obrigatoriamente tratavam de questões sociais. Os tempos mudaram, o público também, e a produção nacional volta a apostar no filme de gênero sem receio.

    Alemão é um thriller policial assumido. É ambientado numa favela, trata do confronto entre bandidos e policiais, mas não é um "favela movie". Não tem pretensão maior que contar a história de cinco policias metidos numa enrascada. Disfarçados como moradores do Complexo do Alemão, são descobertos por traficantes e não podem ser resgatados para não por em risco a invasão da área que vai ocorrer em 48 horas. Até lá vão ter de se virar sozinhos para sobreviver à caçada comandada por Playboy, líder do tráfico vivido por Cauã Reymond.

    Caio Blat (Samuel), Gabriel Braga Nunes (Danillo), Marcello Melo Jr. (Carlinhos), Milhem Cortaz (Branco), e Otávio Muller (Doca) interpretam a equipe de agentes infiltrados. Perseguidos pelos capangas de Playboy, se escondem no QG do grupo, uma pizzaria de fachada que serve de disfarce para o personagem de Muller. A tensão é grande não só porque podem ser capturados a qualquer momento. Sem saber como foram descobertos todos de uma vez, um clima de desconfiança se estabelece no grupo. Antônio Fagundes interpreta o delegado Valadares, que se vê impedido de resgatar a equipe da qual seu filho faz parte.

    Alemão dá uma derrapada em sua primeira meia hora. A trilha sonora incidental onipresente tenta estabelecer um clima de apreensão a fórceps. Há um claro descompasso entre o desenvolvimento da tensão dramática e a música. O problema é resolvido logo depois quando começamos a conhecer os dramas pessoais de cada personagem e a aflição da situação começa a ser palpável para o espectador. Deste ponto em diante trilha e narrativa fazem parelha e se complementam.

    O diretor José Eduardo Belmonte nunca havia trabalhado com o gênero. Realizador de filmes autorais, restrito a festivais e salas de arte, como Se Nada Mais der Certo (2009), aceitou o convite do produtor Rodrigo Teixeira e foi estudar: ver filmes que o ajudassem a entender a mecânica que caracteriza produções do tipo. Viu mais de 40 longas, revelou em entrevista. O esforço deu resultado.

    Alemão consegue chegar à atmosfera de inquietude e angústia que pede um bom thriller policial. Tem ação, tiroteio, perseguição, explosão, mas sem a estrutura cara dos análogos americanos – o filme custou R$ 5 milhões. Produção muito bem-vinda neste momento do cinema nacional por ajudar a enfraquecer o cansativo embate polarizado que opõe filme comercial a filme "de arte". O cinema brasileiro não precisa de fronteiras guarnecidas por gente chata, precisa é de miscelânea.