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    ALITA: ANJO DE COMBATE

    Por Daniel Reininger
    13/02/2019

    Há mais de uma década, James Cameron fala sobre produzir um filme de Battle Angel Alita, mangá conhecido no Brasil como Gunnm. Quando ele decidiu se dedicar a Avatar e suas sequências, passou o amado projeto a Robert Rodriguez, diretor de Planeta Terror. Nas mãos do norte-americano, o longa chega até nós como um espetáculo visual, mas incapaz de alcançar a inteligência e as questões filosóficas do material de origem.

    Como fã do mangá, posso dizer que o filme causa um estranho paradoxo. É ótimo ver Alita e seu mundo ganhar vida em um longa de ação com qualidade técnica indiscutível, porém, é incômodo ver algumas decisões deixarem de lado as questões cruciais da trama, fazendo com que ela se atropele a fim de resolver arcos de quatro volumes do mangá em apenas um filme de 122 minutos.

    A icônica obra de Yukito Kishiro conta a história de uma ciborgue adolescente encontrada em um ferro velho de um futuro distante. A menina possui uma tecnologia perdida há séculos e ela passa a buscar a verdade sobre sua identidade, mas enfrenta provações cada vez maiores.

    É uma incrível obra de ficção, adaptada por um especialista em sci-fi (Cameron), dirigida por um ás da ação (Rodriguez), estrelada pela simpática Rosa Salazar (Bird Box) como Alita e pelo ótimo Christoph Waltz (Django Livre), no papel de Ido, o especialista em cibernética que repara a garota e torna-se seu pai adotivo. Se não está claro, é um filme com um potencial absurdo para se tornar algo marcante também no cinema, mas escorrega em alguns pontos importantes para o desenrolar da trama.

    Para começar, seu roteiro é inchado com tantas histórias que poderia ser transformado em, quem sabe, uma trilogia. A personagem resolve pelo menos quatro arcos - que não vou detalhar para não dar spoilers - em uma única narrativa. Tanta informação jogada ao público em duas horas torna o filme episódico e até cansativo, com Alita partindo de uma situação para outra sem muito tempo para o espectador processar cada clímax!

    Ao contrário do mangá, a crise existencial central à história, na qual Alita se esforça para descobrir quem ela é e de onde vem, é resolvida rapidamente no filme, afinal tudo precisa ser agilizado, e com o máximo de exposição, para justificar a próxima cena de ação. Então, o longa deixa de ser uma poderosa obra de ficção-científica e se torna um raso blockbuster. Uma pena, mas esperado.

    Se não bastasse a correria, o filme não consegue achar o tom certo e flerta com o infanto-juvenil e o adulto. Algumas cenas são extremamente violentas, mas amenizadas com sangue é azul. Em outros casos, a ação mais pesada acontece fora do alcance das câmeras. Sem falar no clima de romance adolescente que permeia boa parte da trama e na simplificação das relações dos personagens.

    O lado técnico compensa parte das falhas, especialmente pelo seu mundo vibrante e detalhado, repleto de pessoas modificadas por partes cibernéticas e locais fascinantes. O filme consegue transportar o espectador para a Cidade da Sucata, local repleto de detalhes bizarros e intrigantes, cenário para cenas de ação empolgantes e muito bem produzidas.

    Parte da graça está em Rosa Salazar e sua ótima atuação. Mesmo com muito CGI, ela consegue fazer Alita ser a personagem mais humana desse mundo distópico e convence como garota inocente, guerreira e heroína. Seu romance com Hugo (Keean Johnson) é sincero, embora sua contraparte não esteja à sua altura.

    Christoph Waltz sofre com o responsável por explicar todos os detalhes da trama, já que muitos de seus diálogos são clichês e desnecessários. Apesar da relação de Ido e Alita ser um bom ponto emocional do filme, o personagem é mal desenvolvido e o ator pouco aproveitado. A sorte é que ele é tão bom, que mesmo com tantos problemas em relação a seu personagem, ainda consegue ser realista.

    Infelizmente, Alita: Anjo De Combate não atinge o nível de excelência do mangá, mas ainda assim é uma boa tentativa de levar a obra de Yukito Kishiro para o cinema. A inserção de múltiplos elementos na tela deixa o filme raso e ignora a necessidade de momentos de reflexão para mostrar o sentido maior das provações enfrentadas pela protagonista. Ao menos, muitas das cenas presentes na produção são empolgantes, e é inegável que este é um projeto ambicioso. Só é uma pena ver uma história tão clássica e profunda ser reduzida a algo tão simplório.