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    ALMAS À VENDA

    Misturando Buñuel, Sofia Coppola e Kaufman, comédia aborda cinismo com criatividade<br />
    Por Heitor Augusto
    07/07/2010

    Imagine se Woody Allen, Sofia Coppola, Stanley Kubrick, Roy Andersson e Michel Gondry participassem de uma grande orgia cinematográfica? Se você não consegue enxergar a cena, pelo menos pode conferir o resultado: Almas à Venda, filme que mistura a paranóia de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, a inadequação com o contemporâneo de Encontros e Desencontros, a fértil imaginação tecnológica de 2001: Uma Odisseia no Espaço e o clima absurdo e original de Vocês, os Vivos e Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças.

    Mas, Sophie Barthes, roteirista e diretora, não é tão ingênua. Em vez de se filiar ao estilo Kaufman de escrever (cujos personagens percorrem um labirinto mental), ela fica mais próxima do surrealismo de Buñuel e do sarcasmo arrasador de Andersson. Apesar da falta de senso lógico das situações, Sophie não sofre da arrogância do cinema de Kaufman.

    O que primeiro chama a atenção em Almas à Venda é a originalidade por trás de uma história boba. Paul Giamatti interpreta a si mesmo, um ator na faixa dos 40 em plena crise, que lê um artigo na revista The New Yorker sobre uma clínica que extrai almas, liderada por Dr. Flinstein (David Straithairn), e resolve ir lá checar.

    Um momento, vamos voltar a fita. Sim, uma clínica que extrai almas! Parece coisa de ficção científica, mas Sophie trata a situação com naturalismo, como se seu personagem tivesse ido ao mercado comprar biscoito. Na tal clínica que extrai as almas condoídas, descobrimos uma complexa estrutura: miseráveis russos vendem a alma por uns trocados e elas são traficadas, por meio de mulas, para os Estados Unidos. É como se o tema do tráfico de órgãos que Stephen Frears abordara em Coisas Belas e Sujas caísse nas mãos de um cientista maluco.

    Só por esse bom começo, Almas à Venda já seria digno de atenção. Felizmente, ele tem mais a oferecer. A segunda coisa que torna o filme uma experiência interessante é a escolha pelo absurdo como motor que deflagra os acontecimentos. Todos ao redor de Paul (diretor, esposa, amigos) não se espantam com uma clínica que retira almas.

    O que é capaz de nos causar espanto hoje? Não no mesmo sentido do medo, mas de fazer o tempo parar, nos tirar do dia a dia e olhar ao redor? Talvez o cinema, e essa é uma das razões que fazem de Almas à Venda algo marcante: usar recursos cinematográficos para apontar o cinismo.

    Estamos tão assépticos e, pior, temerosos de sentir algo que toque fundo a ponto de vendermos a alma (metaforicamente, claro) apenas para nos livrarmos dela? Que descarga de ironia que o filme proporciona.

    A terceira coisa que dá charme a Almas à Venda é justamente a convivência de diversos estilos de cinema dentro de Sophie. O filme não esconde que, por trás de suas piadas e aventuras do protagonista no frio da Rússia, está Luis Buñuel orquestrando o texto e direção de Sophie. Porém, tem horas que ela brinca de Woody Allen, em outras dialoga com os personagens perdidos de Sofia Coppola. Estilos que dão ao filme sua principal qualidade cinematográfica: criação de climas.

    O que impede Almas à Venda de ser um grande filme é: 1) já existe uma pérola da comédia cínica, Vocês, os Vivos; 2) Sophie, como diretora, não faz um grande esforço para se destacar, apenas prepara terrenos para seus bons atores; 3) o roteiro estica, desnecessariamente, muitas situações; 4) a sequência final repete o clichê do final aberto, cada vez mais presente nas produções que querem ganhar o rótulo de “filme de arte”.

    Mesmo assim, Almas à Venda é daqueles filmes que temos de assistir pelo menos uma vez por mês para nos lembrarmos do mundo estranho em que vivemos.