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    AMANHÃ NUNCA MAIS

    Comédia aventuresca marca a volta de Lázaro Ramos ao cinema após quatro anos<br />
    Por Heitor Augusto
    09/11/2011

    Após quatro anos se dedicando ao teatro e à televisão, Lázaro Ramos (Saneamento Básico – O Filme) volta a ter um papel importante no cinema. Ele é o protagonista de Amanhã Nunca Mais, longa-metragem de estreia do paulista Tadeu Jungle, que busca leveza e saídas cômicas para tratar de um tema contemporâneo: a mudança da percepção humana do tempo e a falta deste para tarefas básicas, como encontrar hiatos de saudável solidão ou, quando se tem uma família, dar-lhe a devida atenção.

    Lázaro Ramos é Valter, um médico de classe média que tem como o grande programa dominical ir à Praia Grande com a família. Quem é de lá ou já foi para o local sabe que a nossa Long Beach tem a fama de ser a praia dos “farofeiros”. Investir na ambientação e buscar a identificação do espectador que não conhece a conhece é um gesto bem sucedido de Amanhã Nunca Mais.

    Coco no chão, a filha que quer ir fazer cocô, o frango no Tupperware, os biquínis que tentam conter corpos voluptuosos: a praia como o lugar de reunião de muitas famílias de suposto mau gosto. Jungle consegue fazer, nesse começo, aquilo que Família Vende Tudo tenta, mas falha: retratar sem olhar de cima para baixo.

    Mas Amanhã Nunca Mais, que poderia ser definida como a aventura de um pai (Lázaro Ramos) que tenta cumprir a missão de buscar o bolo da festa de aniversário da filha, mas encontra personagens bizarros pelo caminho, perde uma chance ímpar para um filme que em diversos momentos exercita sua comunicabilidade com o público: trabalhar na chave da catarse.

    Válter é o bom moço com o qual o público se identifica. Um pai esforçado, mas não tão presente quanto deveria. Um marido cheio de amor, mas cuja mulher já perde a paciência com suas faltas – o Ricardão é uma ameaça. Um profissional talentoso, porém espezinhado no hospital público em que trabalha. Ou seja, um perdedor que aguarda o momento de sua vingança.

    O título, Amanhã Nunca Mais, não ajuda para segredar ao espectador o que irá acontecer. E quando o momento em que Válter passa a dar a volta por cima chega, o filme se aproxima do fim. Que erro! No momento de Válter saborear sua “vitória” sobre o mundo e compartilhá-la com o espectador que conquistou, o filme já está no ato final.

    Bráulio Mantovani e José Padilha, roteiristas de Tropa de Elite 2, entenderam o poder da catarse na comunicação com o público e a exploraram sensivelmente. Nas duas vezes em que assisti ao filme acompanhado do público (Paulínia e Tiradentes), a plateia vibrou com a sova de Capitão Nascimento no político corrupto: um golpe no cinema, mas também do espectador que se sentiu vingado.

    Quando Válter faz justiça com as próprias mãos, equivalendo também a um gesto do espectador, Amanhã Nunca Mais não deixa sua plateia saborear. Erro fatal para um filme que desde o começo pretende que o espectador cole nele, repetindo constantemente a mesma piada.

    Entre um desenvolvimento natural do enredo ou a moralização deste, Amanhã Nunca Mais prefere o segundo. Escolha fatal.