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    AMANTES CONSTANTES

    Por Celso Sabadin
    22/09/2006

    Desde que o cinema é cinema, os filmes franceses têm uma forte tradição artística e intelectual. Já nos anos 10 do século passado, os irmãos Lafitte fundaram uma empresa cinematográfica chamada Film d'Art justamente com a intenção de levar o melhor da arte e da erudição para as telas. Décadas depois, o movimento cinematográfico conhecido como Nouvelle Vague, capitaneado por nomes como François Truffaut e Jean-Luc Godard, inundou o cinema de Psicologia e Filosofia, com diálogos gigantescos e elucubrações incessantes. Mas os tempos mudaram e parte da cinematografia francesa tornou-se mais comercial e palatável ao gosto médio do público, com a intenção de não morrer, mas sempre mantendo um certo charme que só os cineastas vindos da França conseguem exalar.

    Porém, o diretor Phillipe Grael parece ter saudades dos velhos tempos. Sem fazer nenhum tipo de concessão comercial, ele realiza seu drama Amantes Constantes de uma forma que produtores e exibidores abominam: em preto-e-branco e com três horas de duração. Ambientado no emblemático ano de 1968, em plena era das revoltas estudantis pelas ruas de Paris, o filme mostra um grupo de jovens que se engaja nas lutas sociais, tomba automóveis e lança coquetéis molotov, ao mesmo tempo em que busca nas artes e no romance as válvulas de escape para seus tão limítrofes momentos de vida.

    O tema é apaixonante. O filme é gelado. São três horas que transformam um dos momentos mais significativos do século 20 numa experiência entediante com pretensiosos ares artísticos. Gigantescos, os planos parecem buscar o incômodo para a platéia. Se a intenção foi essa, conseguiu. O filme realmente incomoda, mas não naquele delicioso sentido provocativo das grandes obras. Apenas incomoda por incomodar, talvez para gritar aos quatro cantos sua rejeição ao produto comercial. Talvez para tentar passar a idéia de que ele é tão rebelde quanto os jovens daquela época. Mas, ao invés de rebeldia, só passa sonolência. Seria uma homenagem à velha Nouvelle Vague? Seria um libelo contra o filme de mercado? Pode até ser. Mas, para o espectador que permanece os 180 minutos se revirando na poltrona, sobra muito pouco, quase nada de conteúdo para viver, pensar ou sentir.

    O Júri de Veneza 2005 resolveu conceder ao filme os prêmios de Direção e Fotografia. Sim, a fotografia, em tons estourados de preto-e-branco, com belos e delicados contrastes, realmente é das mais interessantes. Mas a direção é entediante. Louis Garrel (Os Sonhadores), premiado no César como o Melhor Ator Revelação, é filho do diretor.