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    AMOR

    Michael Haneke lança um olhar cuidadoso e sutil sobre a doença e a proximidade do fim da vida <br /><br />
    Por Cristina Tavelin
    13/01/2013

    Quando duas pessoas convivem por muito tempo, principalmente se formam um casal, tornam-se quase instrumentos uníssonos e inseparáveis. Extinguir um leva ao fim da música. A imaginação da morte parece distante e irreal diante do cotidiano tão bem conhecido. Aqui entra a sutileza de Amor: mostrar o drama não verbalizado de dois idosos diante da doença e possível separação.

    Não que o desespero não venha. Mas Anne (Emmanuelle Riva) e Georges (Jean-Louis Trintignant) são franceses sóbrios e intelectuais, quase ignoram o peso da idade. Cúmplices também de profissão, os pianistas tentam manter a independência, conservando o apoio e a companhia um do outro.

    Para dar vida a este casal, Michael Haneke (A Fita Branca) escolheu a dedo seus atores: Emmanuele (Hiroshima, Meu Amor) interpreta uma Anne elegante no começo do longa. A transformação dos gestos, expressões e movimentos no decorrer da história destaca uma atuação impecável. Trintignant forma o par perfeito e só retornou às telas a pedido do diretor. Enquanto isso, Isabelle Huppert entra como filha dos dois, parecendo manter a aura doentia de seu personagem em A Professora de Piano.

    Poucos são os fatos desconhecidos em Amor. A trilogia doença, desespero e morte está presente desde o início. Há um segredo a se desvendar quando Anne é encontrada em trajes de luto e com flores ao redor da cabeça. Mas o fim já está ali. Talvez isso seja o pior.

    Haneke cria um estado de tensão desumano. Vemos a degradação de uma mulher junto a seu marido, que não sabe mais o certo diante da repetitiva “dor” vinda dos lábios da esposa. Suas atitudes tornam-se questionáveis ao lidar com a enfermidade do ente querido.

    De maneira sutil e quase rara hoje em dia – sem explicações idiotizando o espectador -, o longa expõe a doença de Anne, a independência exagerada da filha e dos netos distantes, a vergonha dos protagonistas diante da decadência. Duas horas de filme passam de forma rápida e angustiante, apesar de não haver muitas novidades.

    O clima tenso é ressaltado pelo vazio da casa escura, pela pomba que insiste em habitá-la, pelos tons esverdeados e degradês de cinza das roupas e fotografia. A câmera paralisada em um personagem, enquanto outro desenvolve a ação - recurso utilizado com frequência por Haneke - enfatiza a impotência em relação ao destino do outro.

    A elegância de Anne é despedaçada ao longo de Amor, assim como o conceito de certo e errado, moral e imoral. Na decadência física, as palavras de fluência tão simples tornam-se uma complicada articulação. A miséria humana se mostra um peso insustentável até para o mais racional dos seres.

    O longa de Haneke não traz um tema novo às telas, mas lança um olhar cuidadoso ao cotidiano de um enfermo e seu ambiente, ao tempo, e à fragilidade dos laços diante do inevitável. Talvez não seja o melhor filme de sua carreira mas, certamente, é indispensável.