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    AMOR SEM ESCALAS

    Quem parar na primeira camada, vai achar George Clooney engraçado e estranho<br />
    Por Heitor Augusto
    18/01/2010

    Amor Sem Escalas é um filme extremamente difícil de classificar. Por quê? Traz uma série de questões e não dá respostas a nenhuma delas. Bom sinal, porque indica um diretor em movimento, mas também faz com que o filme não seja o momento mais agradável de nossas vidas.

    Não me entendam mal, não estou afirmando que seja chato. Amor Sem Escalas tem humor nas situações inusitadas e momentos emocionantes sobre o significado das relações e como é sentir-se conectado a alguém. Mas é low profile e deixa, após piadas sobre quem tem mais cartões de crédito, uma ligeira sensação de melancolia.

    Talvez a principal razão disso seja a essência do protagonista, Ryan. George Clooney interpreta esse consultor responsável por demitir funcionários que as empresas não têm coragem de dispensar. Sem laços com as irmãs e fazendo o tipo solteirão convicto, passa boa parte de seu tempo em aviões, aeroportos e hotéis. O maior objetivo de sua vida é conseguir 10 milhões de milhas e, assim, ser a sétima pessoa no mundo a obter um cartão ultra vip.

    Mas Ryan, enriquecido pelo charme, altivez e independência de Clooney, não encara esse objetivo como o passaporte para a felicidade. O meio vira finalidade e pouco importa a chance de ir para lugares desconhecidos com pessoas desconhecidas. Como espectador, é angustiante ver que Ryan realmente acredita no que diz: relações humanas não passam de peso na mala que impedem a agilidade da vida.

    Ele é o fruto da contemporaneidade: envolvimentos efêmeros, velocidade como um valor supremo e conexões humanas vazias. Não é à toa que passa o tempo em aeroportos (ponto para o livro de Walter Kirn e para o roteiro de Sheldon Turner e Reitman): existe um lugar mais sem raiz que um aeroporto? É melancólico observar que o único lugar que Ryan se sente conectado é justamente onde todos estão juntos, mas completamente separados.

    Mas a direção de Jason Reitman (Juno) não condena o egoísmo de seu anti-herói e propõe uma nova chance a ele. Com o surgimento de duas mulheres, a insegura assistente Natalie (Anna Kendrik) e a consultora Alex (Vera Farmiga), ele terá a oportunidade de rever seus valores e a crônica inaptidão para a relação.

    O personagem certo para o ator correto. George Clooney interpreta novamente o coroa sedutor, mas acrescenta a fragilidade e um humor sarcástico, crédito a ser dado pela direção.

    Amor Sem Escalas se equilibra entre o humor e a dor. Felizmente, não se deixa seduzir pelos finais fáceis das comédias românticas e Jason Reitman, assim como fizera em Juno, volta a apostar na felicidade possível.

    Reitman tem sua visão de mundo e faz um cinema que tenta se manter entre o autoral e o da indústria. Amor Sem Escalas indica que a solidão e as relações humanas foram a pulsão criativa do diretor, enquanto o humor foi o elemento que ele encontrou para não afastar o grande público – já que tanto Juno quanto Obrigado Por Fumar tiveram bilheterias razoáveis.

    O canadense não apenas mostra a felicidade possível de seus personagens, mas faz o voo estético que considera possível. Quem parar na primeira camada do filme, vai achar graça e classificar o personagem de Clooney de esquisito e estranho. Se ultrapassarmos o humor, vamos perceber que tudo aquilo é muito triste.