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    ANABAZYS

    Por Celso Sabadin
    27/03/2009

    Existem temas que parecem inesgotáveis para o cinema. Glauber Rocha é um deles. Polêmico, hiperativo, irascível, tão genial quanto louco, Glauber deixou uma obra filmada que pode ser até considerada "menor" (no sentido quantitativo, claro) quando comparada à sua obra escrita e oral. Escritor e falador compulsivo, Glauber não tinha aquilo que os editores de imagem chamam de "ponto de corte", ou seja, quando começava a falar, dava a impressão que jamais terminaria, não parando sequer para respirar.

    Neste sentido, já faz anos que Paloma Rocha (filha de Glauber) e Joel Pizzini (marido de Paloma) se empenham em restaurar, documentar e - se é que isso é possível - organizar as enxurradas criativas do cineasta. Um dos frutos mais recentes deste esforço monumental é o documentário Anabazys. O filme é obrigatório para quem deseja compreender um pouco mais o cinema brasileiro e também para quem ainda não captou a dimensão da importância de Glauber neste panorama histórico. Quem viveu a Era Glauber tem a oportunidade de rever conceitos. Quem não viveu talvez se espante em perceber como o cinema daquele momento podia ser ao mesmo tempo tão diferente e tão igual ao de hoje. Tão igual: em determinado momento, Glauber fala (há quase 30 anos) que o cinema brasileiro vive perdido entre duas forças gigantescas - o Governo e a Globo.

    Tão diferente: impensável para as gerações atuais o cinema improvisado, sem roteiro e criado na hora que o cineasta propunha e realizava. Como também são impensáveis, na visão de hoje, as participações experimentais, artísticas e criativas que Glauber protagonizava na TV aberta dos anos 70 e início dos 80.

    Anabazys traz momentos preciosos que permitem apreciar o anárquico processo criativo do cineasta. Na era do som dublado, Glauber dirige seus atores na medida em que a câmara roda, como na época dos filmes mudos. E não se atém a roteiros. Improvisa, grita, berra, xinga, manda repetir sem cortar a cena. Chega a mandar que seu ator, Antonio Pitanga, vá pedir carona a um táxi caprichosamente parado próximo às locações, sem sair do personagem. Só para ver o que acontece. E continua filmando. Câmara na mão, improvisação, assumindo as falhas na tela, execrando a sonorização na pós-produção, Glauber "inventou" o Dogma 95 muitos anos antes dos dinamarqueses. Se os franceses inventaram o cinema mudo e os americanos o falado, Glauber inventou o cinema gritado.

    O documentário também explora delicados momentos políticos do cineasta, como a polêmica passagem em que ele afirma que o então General Geisel - presidente escolhido pela Ditadura Militar - seria o homem que abriria o país para a democracia. Uma declaração que jogou a intelectualidade e a classe artística brasileiras ferozmente contra o cineasta, naqueles anos de chumbo.

    São 98 minutos que valem como uma aula de cinema ou mesmo de história do Brasil. Imperdível para quem gosta de cinema e para quem mora no Brasil.