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    ANGEL

    Por Celso Sabadin
    07/03/2008

    Quem já curtiu alguns ótimos filmes de François Ozon, como Gotas de Água em Pedras Escaldantes, O Amor em 5 Tempos, Swimming Pool - À Beira da Piscina e Sob a Areia, certamente sabe que este relativamente jovem (41 anos) cineasta parisiense já se notabilizou por um estilo dos mais marcantes. São filmes duros, secos, perturbadores e herdeiros de antigos mestres, como Claude Chabrol ou Eric Rohmer.

    Por isso, no mínimo causa estranheza o estilo adotado por Ozon em seu mais recente trabalho a chegar no Brasil, Angel. Além de ser o primeiro filme do cineasta falado em inglês, é assumida e rasgadamente melodramático, atingindo níveis de sacarose dificilmente vistos no cinema recente. Não tivesse Ozon o currículo que tem, o filme provavelmente seria execrado em seu nascimento e dificilmente chegaria aos nossos cinemas. Porém, como neste caso a assinatura do artista é mais importante que a própria obra, ele acaba sendo alvo de uma segunda leitura.

    Baseada em romance da inglesa Elizabeth Taylor (não confundir com a famosa atriz homônima), a trama é ambientada no início do século 20 e se centraliza na jovem Angel Deverell. Ela é uma garota ingênua e sonhadora, filha de comerciante, que persegue obstinadamente seu objetivo de tornar uma escritora famosa. Tamanha persistência acaba dando certo: Angel alcança a tão almejada fama, mas logo percebe que isso necessariamente não significa felicidade.

    Chama a atenção no filme a maneira pela qual Ozon exagera - literalmente - nas cores. Tudo é superlativo, novelesco, com um olho flertando com o fake e o outro com o kitsch: interpretações, vestuários, trilha sonora, direção de arte, cenários majestosos... Tanta exacerbação pode ser vista como crítica, sátira ou até mesmo um estranho senso de humor que o cineasta pretendeu destilar em sua obra. Talvez seja uma homenagem ao estilo melodramático dos anos 50, década que o livro foi publicado. Mas, em última análise, trata-se de uma estética arriscada que provoca sérios ruídos na comunicação com o público atual, seguramente desagradando ao espectador acostumado a leituras mais realistas.