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    ANNA KARENINA (2012)

    Clima teatral do longa o desliga da representação fiel fazendo dele uma peça audiovisual única<br />
    Por Cristina Tavelin
    12/03/2013

    "Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira". Esse é o início de Anna Karenina e uma das introduções mais famosas da literatura mundial. A frase de Liev Tolstói nem ao menos é citada no filme homônimo de Joe Wright. Parece uma falha? Pelo contrário. O longa seguiu um caminho diferenciado, com um clima teatral que o desliga da representação fiel, tornando-o uma peça audiovisual única.

    Obviamente, trama bem articulada, diálogos e personagens profundos são heranças da literatura. Wright já havia encarado a empreitada da adaptação outras duas vezes ao lado da atriz Keira Knightley: em Orgulho e Preconceito e no ótimo Desejo e Reparação. Em Anna Karenina, a atriz dá vida à complexa personagem russa do século 19. Quando viaja ao encontro do irmão Oblonsky (Matthew Macfadyen) para ajudar a salvar seu casamento, acaba por conhecer Conde Vronsky (Aaron Taylor-Johnson). O conflito moral surge quando, no vazio de uma vida aristocrática ao lado de Alexei Karenin (Jude Law), apaixona-se pelo jovem oficial.

    A evolução de Keira ao longo dos três filmes é perceptível. Apesar de não ter desempenho excepcional, a personagem parece cair como uma luva para seus traços expressivos. Dos protagonistas, Law se destaca ao viver o alto funcionário do governo extremamente rígido e bondoso – desde que o jogo esteja a seu favor. Alexei parece imergir na penumbra da casa dos Karenin, numa triste crença religiosa que não ultrapassa a racionalidade. Já Taylor-Johnson cumpre seu papel, mas não vai muito além disso.

    Tendo como marca o exagero do teatro, a produção do longa impressiona. Nas sequências dos bailes de época, dezenas de atores vestidos de forma opulenta permanecem estáticos enquanto o foco está apenas no movimento de um casal. O cenário evidente em várias sequências reitera o clima dos palcos. Em uma das cenas, talvez a melhor do filme, um cavalo cai de forma violenta, deixando o elenco estarrecido na plateia - ou na arquibancada do jockey, dentro dessa metalinguagem.

    A Karenina de Wrigh e do roteirista Tom Stoppard (Shakespeare Apaixonado) sonha alto quando se enamora e acredita ser possível enfrentar o julgamento da sociedade para concretizar o que deseja. Porém, quando a realidade se mostra menos encantadora e romântica, entra em um estado de confusão mental. As cenas da engrenagem de um trem em alta velocidade são marcantes na edição. Pouco antes de conhecer Vronsky, a personagem fica impressionada com o acidente fatal de um trabalhador estraçalhado pela locomotiva. Em seus momentos de angústia, a passagem retorna ao espectador para induzir a sensação de esmagamento subjetivo.

    Ao longo da trama, Levin (Domhnall Gleeson) marca um interessante contraponto à Oblonsky. Ao ser rejeitado por Kitty (Alicia Vikander), filha do amigo, passa a questionar o amor e o sentido existencial, enquanto o irmão de Karenina mostra-se mais instintivo e relapso ao falar de tais assuntos. Ele traz em si o lado mundano, prático, ao passo que o personagem de Gleeson parece representar uma metáfora para a tomada de consciência em meio à perdição da protagonista.

    Em determinada cena, a voz interior do rapaz vem de um velho sábio do campo, o qual pontua a felicidade na vida simples e pura, alheia a julgamentos externos. O dourado resplandecente do trigo evoca algo sagrado e o clima etéreo ganha força com a fotografia de contraste forte, que não poderia ser menos marcante sob a direção de Seamus McGarvey (Desejo e Reparação, As Horas).

    Como grande parte das personagens da literatura russa daquela época, Karenina não é boa nem má, oscila entre opostos - algo que torna sua história extremamente atual. Questões como traição e julgamento também interam a complexidade do drama. Mas por ser a adaptação de uma obra tão clássica e ousar em termos de linguagem, o filme de Wright pode cair no mesmo limbo de Os Miseráveis diante do espectador, sem deixar espaço para meio termo: ame ou odeie.