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    AO LADO DA PIANISTA

    Por Celso Sabadin
    22/05/2009

    Atenção, fãs do cinema francês: pela primeira vez, chega ao circuito comercial brasileiro um filme de Denis Decourt, cineasta desconhecido por aqui, mas que bebe na estilosa fonte de seus compatriotas mais badalados, como François Ozon ou Claude Chabrol. Ele é diretor e co-roteirista do ótimo Ao Lado da Pianista, um drama de suspense repleto de tensão.

    A trama começa mostrando Mélanie (a estreante Julie Richalet), uma criança que se dedica ao máximo para passar num teste de piano realizado numa prestigiada escola da França, mas é reprovada por causa de uma simples distração. Após este fracasso, há um corte de tempo, a atriz é trocada por Déborah François (de A Criança) e logo verificamos que o piano deixou de existir na vida da personagem, que parece ter esquecido sua vocação e agora inicia um estágio numa empresa de advocacia. Ou não?

    Apesar de ostentar um estilo cinematográfico dos mais despojados e, aparentemente. cru, Ao Lado da Pianista é repleto de subtextos e leituras cifradas. Logo nas primeiras cenas, por exemplo, a mãe da menina (Christine Citti) dá a dica do que vem por aí, dizendo que, quando Mélanie quer alguma coisa, ela vai até o fim. E realmente vai, mas não na direção de sua carreira artística, da qual desiste logo diante da primeira dificuldade. Já o pai (participação especial do veterano Pascal Greggory) propõe continuar pagando as aulas de piano, mesmo que ela não consiga passar no teste. O que Mélanie rejeita de maneira forte e autoritária. A considerar a observação da mãe, percebe-se que o desejo de vingança da protagonista é bem superior à vontade de triunfar como concertista. É como se o vírus da revanche já estivesse hospedado na garota, esperando apenas o momento e a motivação certos para desabrochar. Por quê? O filme não se propõe a explicar.

    Da mesma forma, quando Mélianie já está crescida, uma colega de trabalho adianta: "Percebe-se que você é meticulosa". Tal característica já havia sido mostrada em cena anterior, quando a garota metódica e friamente tranca definitivamente seu piano e guarda a chave, após falhar no teste. A menina, porém, prefere usar seus dois fortes atributos anunciados - determinação e meticulosidade - não para superar o trauma e tentar, por exemplo, um novo exame, mas sim para arquitetar um minucioso plano de vingança.

    O roteiro também lança mão de falsas pistas, como a galinha preta (que significaria bruxaria), os momentos de tensão que o personagem Tristan (o também estreante Antoine Martynciow) experimenta segurando a respiração no fundo da piscina e assim por diante. Fica em aberto como se desenvolveu a relação de Mélanie com os pais durante a infância, após o teste fracassado. Dois lacônicos e breves telefonemas feitos pela garota, já crescida, não deixam maiores pistas, e instigam a curiosidade do espectador, que fica imaginando o que pode ter acontecido naquele pequeno núcleo familiar. Ou não acontecido.

    A narrativa é de uma frieza glacial que gela a espinha do público que, embalado pela enigmática trilha sonora do estreante em cinema Jérôme Lemonnier, indicado ao César por este trabalho, começa a esperar pelo pior. Sente-se no ar o cheiro da vingança, mas de que forma? E quando? Esperar e imaginar por ela é mais tenso que o ato em si.

    Intrigante e sedutor, Ao Lado da Pianista é indicado a três prêmios César e levou mais 700 mil franceses às bilheterias de seu país. Confira.