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    AS AVENTURAS DE MOLIÈRE

    Por Celso Sabadin
    18/07/2008

    Especular sem compromissos sobre o que poderia ter acontecido em determinado momento obscuro da vida deste ou daquele gênio das artes sempre foi uma grande diversão cinematográfica. Minha Amada Imortal, sobre Beethoven, ou mesmo a leitura livre que Peter Schaffer fez sobre a vida de Mozart em Amadeus são dois bons exemplos disso. Agora, chegou a hora de Jean-Baptiste Poquelot, mais conhecido como Molière.

    Como as biografias de Molière mencionam uma longa e misteriosa ausência quando ele tinha 22 dois anos, os roteiristas Laurent Tirard e Grégoire Vigneron imaginaram a seguinte (e divertida) trama: Moliére, neste período, teria sido praticamente seqüestrado por um mecenas desejoso de conquistar a sua jovem amada por meio de um texto teatral. O milionário apaixonado teria então contratado Molière como seu consultor, sem sequer desconfiar, porém, que o dramaturgo (ainda não famoso) se apaixonaria pela própria esposa do mecenas. Este episódio teria moldado todo o caminho de sucesso que o protagonista viveria em seus próximos anos. Tais fatos não têm a menor relação com a realidade, mas geraram um filme delicioso, criativo, e encantador: As Aventuras de Molière.

    Com o ritmo e a leveza das grandes comédias clássicas, o filme desenvolve toda esta fantástica trama, amparado por exuberantes interpretações de todo o elenco. Molière é vivido com picardia e sagacidade por Romain Duris, de O Albergue Espanhol; o rico mecenas Jourdain, sem medo de ser ridículo, é Fabrice Luchini, de O Insolente; fechando o triângulo amoroso, a bela Elmire, esposa de Jourdain, é Laura Montante, de Medos Privados em Lugares Públicos. Completa o elenco Ludivine Sagnier, a Garota Dividida em Dois de Claude Chabrol.

    É notável como uma obra fundamentada no mundo do teatro acaba sendo tão cinematográfica. Com diálogos afiadíssimos, o filme traz momentos de rara inspiração, como a cena em que Molière (que adota para si o codinome de Tartufo, exatamente uma de suas obras mais famosas) e Elmire fantasiam - simultaneamente - como seria o primeiro encontro amoroso entre ambos. E como a ilusão destes pensamentos fugazes rapidamente se esfacela no ar, vitimada por mal entendidos.

    Digna de nota também é a personalidade patética de Jourdain, um homem sem nenhuma habilidade artística, mas que acredita às raias do ridículo que seu interminável dinheiro possa lhe comprar prestígio, fama e títulos de nobreza. Se Jourdain fosse um personagem contemporâneo, certamente estaria na capa de Caras.

    As Aventuras de Molière foi indicado a quatro prêmios César. Acabou não ganhando nenhum, mas levou mais de um milhão de franceses às bilheterias dos cinemas e já pode ser considerado como uma das melhores estréias do circuito brasileiro deste ano.

    Trata-se apenas do segundo longa do diretor Laurent Tirard, um ex-jornalista que durante sete anos entrevistou diretores como Woody Allen, David Lynch, Martin Scorsese, Jean-Luc Godard e os irmãos Cohen para a série Lições de Cinema, publicada inclusive no Brasil. Certamente, Tirard soube ele próprio aprender bem estas lições.