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    AS INVASÕES BÁRBARAS

    Por Celso Sabadin
    22/05/2009

    Prepare-se para ver um dos filmes mais emocionantes dos últimos anos. Leve lenços de papel. Caixas. E não se importe em chorar no cinema, porque provavelmente as pessoas ao seu lado também estarão aos prantos. Não lágrimas de tristeza, mas sim de emoção, de sensibilidade à flor da pele. O filme é As Invasões Bárbaras, o mais recente trabalho do diretor canadense Denys Arcand, o mesmo de O Declínio do Império Americano e Jesus de Montreal.

    O tema, por si só, já é de marejar os olhos: a inevitável e iminente morte de um pai de família, que quer estar ao lado dos filhos e dos amigos em seus últimos instantes. Mas calma, calma! Não há nenhuma pieguice, nenhum momento brega, nenhum violino hollywoodiano, muito menos a exploração de emoções fáceis. Tudo é dirigido com sobriedade e extrema dignidade por Arcand.

    Com pouco mais de 50 anos, o professor Rémy (Rémy Girard, de O Violino Vermelho) prepara - com razoável tranqüilidade - os últimos dias de sua vida. Ele está irremediavelmente doente e a morte é apenas uma questão de tempo. Aliás, sempre é. Sua ex-esposa, Louise (Dorothée Berryman) pede para que o filho do casal, Sébastien (Stéphane Rousseau, sujeito que é a cara do David Duchovny) deixe por uns dias seu emprego em Londres e viaje até o Canadá, para ver o pai. O problema, porém, é que pai e filho nunca se deram bem, e as diferenças abissais entre ambos terão de ser resolvidas em pouco tempo.

    O tema, em si, não é o grande trunfo de As Invasões Bárbaras, mas sim a forma como ele é tratado. O roteirista e diretor Arcand faz de seu filme um drama agridoce, sentimental, sim, mas não sentimentalóide. Emotivo, sim, mas nunca apelativo, e ainda abre espaço para boas risadas graças aos afiadíssimos diálogos. Em determinado momento, Rémy diz a uma freira que não há vantagem nenhuma em morrer, ir para o céu, e ficar "tocando harpa no meio de um polonês sinistro e uma albanesa viscosa", referindo-se a João Paulo II e Madre Teresa de Calcutá. O inferno deve ser mais divertido.

    Mais do que retratar a morte de um pai de família, Arcand pinta em cores sóbrias e amargas a morte de toda uma geração. O cinqüentão Rémy e sua divertida troupe de amigos representam uma alegre boemia em processo de extinção. São pessoas cultas, politizadas, bon-vivants, mas que em algum momento de suas vidas lutaram arduamente pelos seus ideais. Por outro lado, os jovens retratados no filme são de dar dó. São viciados - em drogas ou em trabalho, o efeito é o mesmo - perdidos em suas ausências de convicções, materialistas, corruptos, tristes. Repare como no filme os velhos riem muito mais do que os jovens.

    O título - As Invasões Bárbaras - num primeiro momento sugere se tratar dos atentados de 11 de setembro, mas aos poucos Arcand abre novas interpretações a ele. Pode ser a invasão da mediocridade sobre a cultura, do individualismo sobre o social, da superficialidade sobre o profundo. Vai de cada um. O importante mesmo é se emocionar com este belíssimo trabalho vencedor do prêmio de melhor roteiro no Festival de Cannes, e escolhido pelo Canadá para representar o país no próximo Oscar.