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    ASSASSINATO EM GOSFORD PARK

    Por Celso Sabadin
    22/05/2009

    O aclamado diretor Robert Altman novamente esbanja talento com seu estilo cinematográfico preferido: o de misturar uma grande quantidade de personagens dos mais interessantes, cruzar suas vidas e destilar a partir daí deliciosas doses de veneno social. Foi assim com Short Cuts – Cenas da Vida, Prêt-a-Porter, Dr. T. e as Mulheres e, agora, no saboroso Assassinato em Gosford Park.

    Tudo acontece em 1932, num requintado palacete inglês, onde os tipos mais diferentes se reúnem para um final de semana de caçada ao faisão. São nobres, ex-ricos, esnobes, decadentes, emergentes e até um galã de Hollywood que aproveitam a oportunidade do evento para colocar em prática as mais diversas formas de badalações sociais. Cada nobre ou grupo de nobres tem seus pajens e aias que formam um verdadeiro séqüito de serviçais dispostos a tudo para a satisfação dos desejos de seus patrões.

    Dentro do palacete, a divisão de classes é fortemente delimitada: patrões nos andares superiores, empregados nos andares inferiores. Patrões falam. Empregados escutam e atendem. A dominação é tamanha que, durante todo o período do evento, os lacaios são obrigados a adotar os mesmos sobrenomes de seus senhores para que não existam confusões sobre quem “pertence” a quem. Se, por acaso, esta linha social vier a ser abertamente desafiada, os resultados podem ser trágicos. Como de fato serão, como já entrega o título do filme em português.

    Durante os primeiros dois terços de Assassinato em Gosford Park, o filme parece uma produção Ivory/ Marchand (Uma Janela Para o Amor,
    Retorno a Howard´s End, Vestígios do Dia
    ) salpicado com humor a la Woody Allen. Após o assassinato propriamente dito, ele se transforma num debochado Agatha Christie. Ágil, esperto, com um invejável frescor juvenil, o estilo de direção de Altman jamais denuncia os quase 80 anos do talentoso cineasta. O texto é delicioso. “Pare de chorar senão todos vão pensar que você é italiana” ou “Claudette Colbert é inglesa ou apenas afetada?” são algumas das pequenas pérolas do cinismo destiladas durante a projeção. Como sempre, Altman também não poupa críticas ao próprio mundo do cinema: “Você é o assassino?”, pergunta determinado personagem. A resposta vem rápida: “Pior, eu sou ator.”

    O elenco é um capítulo à parte: Kristin Scott Thomas, Emily Watson, Maggie Smith, Stephen Fry, Richard E. Grant, Helen Mirren, Charles Dance, Alan Bates, enfim, a nata dos astros britânicos. Só faltou Anthony Hopkins, mas aí também já seria pedir demais.

    Não é por acaso que Assassinato em Gosford Park está indicado para sete prêmios Oscar, incluindo os de Melhor Filme e Melhor Diretor. Dificilmente vai ganhar, o que não tem a menor importância. Trata-se de uma das melhores surpresas que chega aos nossos cinemas neste início de ano. E já é forte candidato a constar na lista dos melhores de 2002.

    6 de março de 2002
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    Celso Sabadin é jornalista e crítico de cinema da Rádio CBN. Às sextas-feiras, é colunista do Cineclick. celsosabadin@cineclick.com.br