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    ATÉ A ETERNIDADE

    Filme é charmoso, engraçado, emocionante e se destaca pela ótima composição de seus personagens<br />
    Por Roberto Guerra
    03/07/2012

    O que salta aos olhos neste filme francês é a aula que ele dá sobre construção de personagens e a habilidade de equilibrá-los numa mesma trama. Mérito do diretor, ator e roteirista francês Guillaume Canet ao apresentar ao público um grupo de protagonistas tão bem construídos que, quando chegamos à metade do filme, é como se conhecêssemos todos eles há um bom tempo. Sabemos quem foram, quem são e podemos antever seus passos futuros. Assim se constrói personagens críveis aos olhos do espectador e, em Até a Eternidade, todos eles são humanos de carne, osso e alma.

    A trama começa com um ótimo plano-sequência em que acompanhamos Ludo (Jean Dujardin, de O Artista) deixando uma casa noturna depois de uma noite de diversão. Ele pega sua moto e vaga pelas ruas vazias de uma Paris prestes a despertar. Num átimo, um acidente o tira de seu caminho. E não será apenas sua vida que irá mudar depois do inesperado episódio. Ludo era o mais animado de um grupo de amigos que sempre viajava junto nas férias de verão. O acidente acontece pouco antes do início da temporada, quando toda turma já estava pronta para colocar o pé na estrada. Eles visitam o amigo no hospital e, ao verificar que não têm muito o que fazer, decidem seguir com os planos de viagem.

    Indiferença ou impotência diante do ocorrido? A semana na praia vai servir para desmascarar sentimentos e ver até onde vai a pretensa solidez dos laços que os unem. Conflitos diversos surgirão, ocasionados por sentimentos de culpa, ciúmes e segredos que precisam ser guardados ou talvez revelados. E, em meio a tudo isso, há momentos de descontração e humor pautando esse agradável filme sobre o tema amizade, tudo de maneira muito sutil num trabalhado elogiável de desenvolvimento do arco dramático. Inúmeras trivialidades dessas que permeiam nossas vidas são trabalhadas com tal habilidade que o real vira entretenimento e deleite ao longo da projeção.

    Até a Eternidade tem sua força na composição de seus personagens e não em sua história, que nada tem de original ou surpreendente. O filme é charmoso, engraçado, emocionante e possui um verdadeiro sentimento de comunidade em seu conjunto. Com um elenco excepcional, em que se destacam François Cluzet (A Quase Verdade) e Marion Cotillard (Piaf - Um Hino ao Amor), e uma trilha sonora recheada de clássicos norte-americanos, este filme trata do valor da amizade num plano diferente dos dias atuais, em que redes sociais mudaram o conceito do que é ser amigo de alguém. A amizade hoje é quantificável e também mais fácil de terminar, bastando deletar a pessoa de sua lista de contatos. Neste mundo em que cliques resolvem os dramas de nossas vidas, é um prazer ver este filme que se debruça sobre eles.

    E segue aqui um aviso: não desanime diante dos 154 minutos de duração do filme. Até a Eternidade não é longo, mas dentro de seu tempo. Ao final, tem-se a sensação de que poderíamos acompanhar seus personagens por horas a fio.