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    BAARÌA - A PORTA DO VENTO

    Giuseppe Tornatore mostra habilidade ao falar de sonhos em uma Itália repressora<br />
    Por Heitor Augusto
    08/09/2010

    A infância, a memória, a amizade e a paixão pelo cinema voltam a ser matéria-prima de um filme de Giuseppe Tornatore. Assim como em Cinema Paradiso, seu trabalho mais conhecido, esses elementos sustentam Baarìa – A Porta do Vento, longa-metragem que faz juz à classificação: são 150 minutos de projeção.

    Porém, não se assuste. Os 10% do seu dia que serão gastos na sala do cinema passarão rápido como um sopro de vento. Há um trabalho profundamente humano e terno com os personagens, mas o que surpreende em Baarìa – A Porta do Vento é o ritmo. Como afastar um possível tédio num filme de quase três horas? Tornatore dá a resposta nessa produção autobiográfica.

    A história acompanha três gerações na Bagheria, pequena cidade da região de Sicília, sul da Itália. Ciccio (Gaetano Aronica), o pai, que luta para criar os filhos sob o fascismo de Mussolini; Peppino (Francesco Scianna), o filho, que se torna um militante comunista no pós-guerra; Pietro (Marco Iermanò), o neto, jovem que cresceu na efervescência dos anos 60 e se apaixona pelo cinema.

    Um filme apenas “correto” colocaria o país (coletivo) e o individual em duas camadas diferentes. O momento político da Itália serviria como pano de fundo para ambientar um drama entre um casal, por exemplo. No caso de Baarìa – A Porta do Vento, esses dois extratos estão em perfeita simbiose.

    Ele não só repassa momentos da Itália entre 1930 e 80, mas fala de personagens que, se não fosse pelo que aconteceu nesse intervalo de cinquenta anos, tomariam rumos muito diferentes. Depois de assisti-lo, ainda ecoa a pergunta do que teria acontecido com milhares de pessoas que viveram em situações parecidas da família Torrenueva? Quantas vidas passaram despercebidas porque o cinema não estava lá para mostrar?

    Tornatore é um cineasta de movimentos de câmera clássicos. Ao menos em Baarìa – A Porta do Vento, nada de câmera na mão. Até mesmo nas cenas de protesto que mexem com a adrenalina, lá está a câmera observando com serenidade o que acontece. Por outro lado, Tornatore organiza a mise-en-scène de maneira peculiar.

    Personagens não são convidados a entrar em quadro, simplesmente invadem! Curioso como muita coisa acontece ao mesmo tempo. Enquanto acompanhamos um romance em primeiro plano ou a corrida de um garoto, uma dona de casa joga um balde de água na rua, um rapaz compra dólares, uma charrete atravessa a rua... parece que estamos perdidos nas ruas de Bagheria e apenas o diretor pode nos guiar. Tudo isso ilustrado pela esperta montagem de Massimo Quaglia e com sutilezas para indicar a passagem do tempo.

    Além desses detalhes prazerosos para quem é cinéfilo, Baarìa – A Porta do Vento é uma epopéia. Concentrada especialmente na vida de Peppino, o filho, trata-se de uma baita aventura. Sem perseguições de carros ou suspense, apenas pessoas e suas vidas, com muitas emoções pelo caminho.

    O cinema de Tornatore dá um valor sublime à memória e aos sonhos. Quando uma criança voa em seus filmes, nem parece trucagem, mas algo real: estamos flutuando junto com ela, compartilhando seu coração. Sentimentos reforçados pela trilha de Ennio Morricone, ímpar em fazer o espectador entrar no filme e, mais que isso, senti-lo na pele como se fosse sua própria história sendo contada.

    Baarìa – A Porta do Vento nos pede para sonhar e exige que percebamos que sem memória o presente não serve de nada. Autobiográfico? Sim, mas de significado único para cada espectador que assistir ao filme.