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    BEM-VINDO A SÃO PAULO

    Por Celso Sabadin
    21/09/2007

    O olhar paulistano sobre a cidade de São Paulo já é dos mais conhecidos. A cada 25 de janeiro, aniversário da capital, as emissoras de TV despejam na mídia horas e horas de imagens, textos, sons e movimentos a respeito da maior metrópole da América do Sul. Como seria, porém, o olhar estrangeiro sobre a cidade? De que maneira São Paulo impressionaria - para o bem e para o mal - as vistas de tarimbados cineastas internacionais? O projeto, dos mais interessantes, motivou a organização da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo a convidar diretores de várias partes do mundo para que cada um realizasse um curta-metragem que comporia um longa sobre a metrópole.

    Assim, após três anos de produção, ficou pronto Bem-Vindo a São Paulo, filme composto por 18 segmentos: Marco Zero, de Phillip Noyce (Austrália); Natureza-Morta, de Renata de Almeida e Leon Cakoff (Brasil); "Manhã de Domingo", de Mika Kaurismäki (Finlândia); A Garçonete, de Kiju Yoshida (Japão); Concreto, narrado por Caetano Veloso (Brasil); Novo Mundo, de Jim McBride (EUA); Ensaio Geral, de Hanna Elias (Palestina); Alguma Coisa Acontece, de Maria de Medeiros (Portugal/ França); Aquário, de Tsai Ming-Liang (Taiwan); Esperança, de Ash (EUA); Fartura, de Mercedes Moncada e Franco de Peña (México/ Venezuela); Formas, de Andrea Vecchiato (Itália); Signos, de Max Lemcke (Espanha); Modernidade, de Amos Gitai (Israel); Esperando Abbas, de Leon Cakoff (Brasil); Odisséia, de Daniela Thomas (Brasil) e Bem-Vindo a São Paulo, de Wolfgang Becker (Alemanha).

    A má notícia é que, salvo raríssimas e honrosas exceções, o que se vê na tela é muito parecido com tudo o que o paulistano já viu, nas reportagens especiais que as televisões já cansaram de exibir nos aniversários da cidade. Os lugares-comuns são os mesmos, as visões são muito parecidas, algumas até redundantes. Alguém, principalmente o paulista, ainda agüenta ouvir a música Sampa, para retratar a cidade? E o batidísisimo conceito da cidade dos contrastes, então? Talvez a Praça da Sé seja novidade para o estrangeiro, mas é difícil que o tema ainda tenha algo de novo a mostrar para quem mora aqui há algumas décadas.

    Mesmo com tantos cineastas estrangeiros no projeto, tanto o ponto alto do filme como o baixo ficaram a cargo dos brasileiros. O alto é o episódio dirigido por Daniella Thomas, que propõe uma micro-odisséia visual e sensitiva pelo Elevado Costa e Silva, o popular Minhocão. O baixo é o inacreditável Esperando Abbas, de Leon Cakoff. De carro, o próprio Cakoff percorre as ruas dos Jardins à procura de um sem-teto que, afirma ele, teria impressionado o cineasta iraniano Abbas Kiarostami numa de suas passagens por São Paulo. Ao encontrá-lo, Cakoff abaixa o vidro elétrico do automóvel e, sem sair do veículo, inicia uma conversação surreal com o desabrigado, dizendo coisas do tipo "O Abbas Kiarostami quer fazer um filme com você". Desorientado, o pobre sujeito à beira da calçada mal entende o que está sendo dito. E com razão. Cakoff pergunta se ele um dia toparia participar do filme de Abbas e o rapaz afirma que sim, desde que não fosse nada violento. Parece ruim o suficiente? Tem mais: não contente em ter cometido um dos momentos mais constrangedores já proporcionados pelo cinema brasileiro, o cineasta olha para a câmera e diz: "Vamos outra vez?". E tudo é exaustivamente repetido, numa segunda e insuportável tomada.

    São Paulo não merecia isso.