cineclick-logo
    botão de fechar menu do cineclick
  • FILMES
  • NOTÍCIAS
  • CRÍTICAS
  • LISTAS
  • © 2010-2021 cineclick.com.br - Todos os direitos reservados

    BEM VINDO A NOVA YORK

    Ferrara faz encenação da sordidez sexual sem profundidade
    Por Roberto Guerra
    02/09/2014

    Este longa de Abel Ferrara (de 4:44 - O Fim do Mundo) é livremente inspirado no rumoroso escândalo sexual que ganhou as manchetes dos jornais em 2011 envolvendo Dominique Strauss-Kahn, o ex-chefão do Fundo Monetário Internacional. O termo "livremente inspirado" deve ser levado em consideração pelo espectador, porque o que vai ver na tela não é uma representação dos fatos, mas uma encenação da sordidez sexual e sua relação com o poder pelos olhos de Ferrara.

    Gérard Depardieu (Mamute) interpreta, com total desprendimento, Devereaux, o todo-poderoso presidente de uma instituição financeira viciado em sexo. Um tipo ao mesmo tempo atraente e repulsivo que vive uma vida de excessos hedonistas, depravações sexuais e se considera intocável. Seu mundo, no entanto, vira de cabeça para baixo quando é preso por agressão sexual em uma viagem de negócios a Nova York.

    Ferrara dedica a primeira meia hora do filme ou quase isso a uma série de cenas de sexo prolongadas com Devereaux grunhindo e rosnando com um bicho insaciável. Um interpretação corajosa de Depardieu de um viciado em sexo assumido e descontrolado. Antes, na cena que abre o filme, o ator é mostrado numa coletiva explicando porque se interessou pelo personagem: "Porque eu não gosto dele. Não gosto de políticos", diz.

    Não demoramos muito a notar que Devereaux não é a representação de Strauss-Kahn, mas um personagem criado a partir dele. Uma distorção criativa da mente de Ferrara, que sempre se interessou em filmar o mal e suas manifestações. O problema é que o resultado disso tudo é somente inquietante de se ver. Não passa muito disso e perde a oportunidade de se aprofundar na percepção de que o mundo ainda mantém traços feudais em suas relações sociais.

    A cenas de sexo e orgias que dão o tom num primeiro momento são substituídas posteriormente por também extenuante sequências da via-crúcis de Devereaux dentro do sistema prisional, com sequências que pouco dizem e soam supérfluas. Sobra o bom trabalho dos atores principais: Depardieu com um Devereaux obcecado e escravo de seus apetites - um monstro que não percebe sê-lo -, e Jaqueline Bisset como a mulher inteligente que se resignou no papel de mãe de seu marido autodestrutivo.

    Bem-vindo a Nova York poderia ter se aprofundado em uma infinidade de temas, como a misoginia, mercantilização das mulheres, os males do capitalismo e sociopatias decorrentes , as diferenças de classes e os privilégios dos mais afortunados. A matéria era rica, mas Ferrara preferiu ficar na superfície.