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    BIANCA

    Por Celso Sabadin
    22/05/2009

    O mercado brasileiro tem umas coisas bem estranhas. Há ótimos filmes que nunca chegam até nós, filmes péssimos que chegam com uma velocidade incrível, e bons trabalhos que permanecem décadas numa espécie de "limbo cinematográfico" e estréiam por aqui com um atraso descomunal. É o caso deste Bianca, produção de 1983 - isso mesmo, 83 - que só agora estréia no Brasil. E estréia com o aval de qualidade do diretor, roteirista e ator Nanni Moretti, o mesmo do premiadíssimo O Quarto do Filho.

    Dentro de seus estilo sóbrio e muitas vezes enigmático, Moretti conta a história de Michele (vivido por ele próprio), o novo professor de matemática de um colégio estranhamente batizado de "Marilyn Monroe" (!). Logo em seu primeiro dia de trabalho, Michele percebe que o nome do colégio não é a única peculiaridade do lugar. Lá, todos parecem um pouco "fora do ar", há pebolins na sala dos professores, o diretor gargalha sem motivo aparente, enfim, um universo mais para Felini que para Moretti. Aos poucos, o público também passa a perceber que o próprio Michele é tão - ou mais - esquisito que seu novo colégio. Cheio de manias (espionar os vizinhos, por exemplo), o aparentemente tranqüilo professor começa a demonstrar outras de suas facetas menos nobres depois que conhece a bela Bianca (Laura Morante), a nova professora de francês por quem se apaixona.

    Bianca é um filme estranhamente envolvente. Em ritmo apropriadamente lento, ele vai jogando pistas para o espectador, pequenas estranhezas que nem sempre são explicadas até o final da narrativa. E nem precisam ser. O filme não tem nem a estética, nem aquela manjada relação de "causas e efeitos" que o cinema americano não se cansa de explorar. É um trabalho de narrativa simples, crua, e que por isso mesmo nos envolve com curiosidade no universo deste estranho professor. Mesmo com 20 anos de atraso, merece ser conferido.