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    BINGO - O REI DAS MANHÃS

    Por Daniel Reininger
    21/08/2017

    Daniel Rezende deixou de ser um dos principais montadores do Brasil para encarar a vida como cineasta. Logo em seu primeiro trabalho, já acerta a mão com Bingo - O Rei Das Manhãs, uma obra inteligente, divertida e de muita qualidade baseada na vida de Arlindo Barreto, o palhaço Bozo do programa infantil que foi sucesso nos anos 80.

    Na trama, Augusto (Vladimir Brichta) é um artista que vem de uma família de atores, mas que só consegue papéis pequenos ou em Pornochanchadas. Ele finalmente tem sua grande chance ao se tornar Bingo, um palhaço apresentador de um programa infantil de televisão. Só que uma cláusula no contrato não permite revelar quem é o homem por trás da máscara e ele passa a enfrentar uma enorme frustração, além de se entregar às drogas e ao álcool.

    O longa mostra a decadência de Augusto e como isso afeta as pessoas ao seu redor, principalmente seu filho. A ótima atuação de Brichta é crucial para a alternância entre humor e drama e sua interpretação de Bingo dá vida não só ao palhaço, mas também à triste figura atrás da máscara. Leandra Leal também aparece bem no papel da diretora do programa de TV e seu relacionamento com Augusto/Bingo é um dos grandes focos da obra.

    Mas o grande trunfo da obra é como ela captura o espírito da cultura pop no Brasil, com seu jeito nonsense, psicodélico e sem limites. Bingo se torna o símbolo do clima de zoeira dos anos 80 e, apesar de se passar 30 anos atrás, é mais atual do que nunca. Além disso, a busca por realização pessoal, os abusos proporcionados pela fama e a decadência são questões sempre atuais.

    O clima oitentista é garantido com um cuidado incrível com a direção de arte, com cenários e ambientação muito bem reproduzidos e trilha sonora exagerada e ideal para a obra. A fotografia também captura bem o espírito da trama e ajuda a definir o clima das cenas, seja algo mais sombrio nos momentos mais dramáticos ou algo mais colorido naqueles mais engraçados. Um belo trabalho técnico.

    Apesar de tantos pontos positivos, o longa sofre com alguns problemas. O desfecho é previsível e parece apressado, afinal não conhecemos o caminho do protagonista até a suposta redenção forçada do final. A edição linear acaba atrapalhando um pouco, porque deixa a trama óbvia demais e chega até a deixar a narrativa arrastada em certos momentos.

    Mesmo que você nunca tenha ouvido de falar de Bozo, Arlindo Barreto e não tenha vivido nos anos 80, o filme vale ser visto, afinal Bingo mostra que o cinema brasileiro pode ter grandes filmes sem precisar se apoiar somente nos dramas densos e nem apelar para as comédias nacionais mais caricatas, que são sucesso de bilheteria.

    Precisamos de mais filmes como esse, com trama relevante e diferente dos temas explorados à exaustão por aqui e, o mais importante, com preocupação com a qualidade técnica e de atuação do começo ao fim. Daniel Rezende se supera na direção e mostra que é um nome forte também como cineasta.