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    BOA SORTE, MEU AMOR

    Mais um bom exemplar do cinema feito em Pernambuco
    Por Roberto Guerra
    26/08/2013

    Alguns cineastas pernambucanos não gostam quando a imprensa especializada categoriza seu cinema. Cinema brasileiro, dizem, e não pernambucano. Negar o regionalismo, neste caso, é bobagem. Assim como seria não levar em conta esta produção atípica dentro do cenário nacional pela qualidade, ousadia narrativa e estética, e fuga, quase sempre bem-sucedida, do convencional. Boa Sorte, Meu Amor, de Daniel Aragão, é mais um exemplo da boa safra de filmes do elogiado e premiado audiovisual pernambucano.

    Filmado em preto e branco, conta a história de amor entre Dirceu (Vinicius Zinn) e Maria (Christina Ubach). Ele é empresário do ramo de demolição, filho de um fazendeiro do interior. Ela, estudante de música que sonha viver da profissão, mas sobrevive de bicos como promoter. Os dois se apaixonam depois de seus caminhos se cruzarem por acaso e, a partir desse romance, o filme se propõe a discutir diversos temas relacionados ao embate entre velho e novo, presente e passado, tendo como pano de fundo um Estado onde o choque entre essas realidades é gritante.

    Este é tema recorrente e característico da cinematografia pernambucana. Aragão, como seus conterrâneos diretores, fala dessa transformação de Recife exibindo cenas de casarões históricos sendo derrubados em contraponto a edifícios de luxo sendo construídos. O próprio apartamento de Dirceu, espaçoso e vazio, reforça o quanto essa transformação da cidade incomoda os artistas da terra, que veem a especulação imobiliária descaracterizando e demolindo a história arquitetônica recifense.

    Toda trama é levada longe do lugar-comum, enveredando-se pelo surrealismo de algumas situações e abusando da trilha sonora para criar sensações díspares da realidade narrativa exibida na tela - uma clara provocação do diretor. E é preciso embarcar em sua proposta para driblar a estranheza, que é bem-vinda. Aragão, no entanto, exagera nas referências – e elas são muitas – tentando abarcar num mesmo filme assuntos diversos e propostas estéticas idem. Isso faz com que Boa Sorte, Meu Amor perca um pouco da harmonia e pareça, por vezes, um ou mais filmes dentro de outro.

    A ousadia de Aragão, no entanto, não é despropositada, inócua e muito menos supérflua. O cineasta, estreante em longas-metragens, segura o espectador do começo ao fim da trama, provoca sensações diversas e não distancia o público com vanguardismo de boutique. Trabalho de estreia elogiável de um diretor que merece atenção por nos fazer antever coisas boas no futuro.