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    BOI NEON

    Gabriel Mascaro entrega drama com personagens nada óbvios
    Por Edu Fernandes
    23/10/2015

    Muitos filmes começam com uma boa história, enquanto outros partem de bons personagens. É nesse segundo grupo que se encaixa Boi Neon, longa de Gabriel Mascaro (Doméstica) que foi grande vencedor do Festival do Rio e destaque na Mostra de São Paulo.

    A história gira em torno de Iremar (Juliano Casarré, de Serra Pelada), que cuida de touros em rodeios. Ele tem todas as características de um típico homem bruto do interior, mas cultiva um hobby que parece não se encaixar com seu biótipo: ele desenha e confecciona figurinos de dança para sua amiga Galega (Maeve Jinkings, de Amor, Plástico e Barulho).

    O estranhamento chega ao seu ápice quando o protagonista pega uma revista masculina e abre em uma página com uma mulher nua. A imagem serve de inspiração, mas não para dar vazão a sua libido – ele usa a foto para conceber o mais novo traje de Galega. Outra característica de Iremar que destoa do ambiente é sua vaidade. Ele se preocupa em estar perfumado, mesmo que seu ambiente de trabalho não tenha um odor muito atraente.

    A figura feminina também tem suas excentricidades. Apesar de ser uma mulher asseada, que pinta os cabelos entre outros cuidados estéticos, Galega tem uma profissão inesperada. Mesmo com seu jeito um tanto rude, não se espera que ela seja uma caminhoneira – do tipo que tem ciúmes da caixa de ferramentas.

    Mais adiante, outro personagem inusitado se une à trupe. Junior (Vinícius de Oliveira, de Assalto Ao Banco Central) é colega de trabalho de Iremar e passa um bom tempo do seu dia dedicado aos cuidados de suas longas madeixas, que mais parece pertencer a um artista do que a um homem do campo.

    Esses personagens únicos, vividos por atores conhecidos, é mais um passo de Gabriel Mascaro que se distancia do documentário e segue um caminho à ficção. Um Lugar Ao Sol (2009), um de seus primeiros filmes, é um típico documentário de entrevistas. Entretanto, Ventos De Agosto (2014), seu trabalho diretamente anterior, é a princípio uma ficção, mas traz passagens documentais.

    Boi Neon tem seus momentos de não-ficção nas sequências de rodeio, mas é mais ficção do que qualquer outra obra do cineasta pernambucano. Mesmo assim, há uma recusa de uma narrativa mais tradicional e, por vezes, fica a impressão de que nada acontece com esses personagens tão criativos. Tal característica é determinante: pode encantar ou afastar cada espectador.

    Outra afirmação que pode ser feita é que Boi Neon é um filme de resposta. Na época de sua passagem por festivais até sua estreia comercial, Ventos de Agosto levantou discussões sobre sexismo, por conta do maior número de cenas de nudez feminina em relação à nudez masculina. O novo filme é diametralmente oposto nesse sentido, com muito nu frontal dos atores e algumas cenas que ficam na corda bamba entre a contestação e o excesso.

    Por outro lado, Mascaro nunca se excede na entrega do discurso. Desde seus documentários, o diretor deixa que os personagens tenham voz própria e que o espectador chegue a suas próprias conclusões. Boi Neon não é diferente. O filme pode incitar discussões sobre direito dos animais, expressão de gênero e sexualidade, e outros temas; mas tudo com muita sutileza, mais uma vez no limite do discurso.