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    BORBOLETAS NEGRAS

    Atuação impecável de protagonista feminina sustenta drama agradável<br />
    Por Roberto Guerra
    19/09/2011

    Após presenciar um ato de violência contra crianças sul-africanas, a poetisa Ingrid Jonker escreveu o poema The Dead Child of Nyanga, que mais tarde foi lido por Nelson Mandela em seu discurso de inauguração do primeiro parlamento democrata da África do Sul em 1994. Sua história de inconformismo com o regime segregacionista do Apartheid e suas relações precárias com os homens - incluindo seu pai (Rutger Hauer), membro do regime - são mostradas em Borboletas Negras, da holandesa Paula van der Oest (Zus & Zo).

    O filme se sustenta quase inteiramente na impecável atuação da atriz Carice van Houten (A Espiã), que consegue dar densidade e verdade aos dramas pessoais vividos pela poetisa. Vendo-a atuar quase se esquece dos problemas de fluxo narrativo da trama, de sua pressa em apresentar a personagem e das deficiências adjacentes relacionadas aos coadjuvantes, que entram e saem de cena sem que o espectador consiga captar suas essências. As conexões da protagonista com estes personagens nunca são realmente exploradas a contento, revelando-se pressurosas e rasas.

    Exceção feita ao escritor Jack Cope, interpretado por Liam Cunningham, único personagem a ganhar dimensão no deficiente roteiro de Greg Latter. Ele vive intenso e conflituoso romance com a protagonista e se destaca pelo bom trabalho de Cunningham, numa interpretação parcimoniosa e equilibrada, que compensa os diálogos mal elaborados que permeiam o filme.

    Um dos grandes prejudicados pelo texto, que se concentra na personagem central e esquece do entorno, é Rutger Hauer, cuja interpretação fica comprometida graças a mal explorada relação dos conflitos pai-filha, uma das principais fontes da angústia da protagonista. Fica a sensação de que havia muita coisa ali a ser desenvolvida, particularidades que serviriam de base para um melhor entendimento das tensões vividas por Ingrid.

    As deficiências de Borboletas Negras jogaram por terra a chance de se fazer um ótimo retrato de personagem interessantíssima num pano de fundo histórico importante. Ainda assim, o bom trabalho de Carice van Houten, as belas imagens do litoral da África do Sul sob trilha sonora marcante e os pungentes versos de Ingrid a pontuar o filme resultam num trabalho agradável de se ver e sentir.