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    BOYHOOD: DA INFÂNCIA À JUVENTUDE

    Em ótima forma, Linklater transforma vida comum em arte
    Por Gustavo Assumpção
    29/10/2014

    Há algo essencial para que Boyhood: Da Infância À Juventude pudesse se tornar a experiência encantadora que é: a ousadia de Richard Linklater. Depois de investigar os relacionamentos na trilogia Antes do AmanhecerAntes do Pôr-do-Sol e Antes Da Meia-noite, o diretor nos mostra seu trabalho mais maduro, um celébre estudo sobre os tumultos da infância. 

    O conceito de seu projeto parecia fadado ao fracasso: durante 12 anos, Linklater filmou Boyhood com os mesmos atores. A ideia era refletir sobre o tempo e sua força de transformação, revelando a mudança ano a ano não apenas do visual, mas também da personalidade desses personagens. 

    Produzido com orçamento modesto, o filme mantém a fórmula que Linklater construiu ao longo de sua filmografia, incluindo a banalidade dos diálogos por vezes longos em exagero. Mas, aqui, ele foi além, reunindo o que de melhor seu cinema trouxe ao longo dos anos: a visão romântica e realista da adolescência de Jovens, Loucos e Rebeldes, o flerte com a filosofia de Wacking Life, o humor jovem e despretensioso de Escola De Rock e a intensidade afetiva da trilogia iniciada em Antes do Amanhecer.

    Por isso, Boyhood não é apenas um filme sobre esse menino, Mason (Ellar Coltrane) e seu caminho da juventude à adolescência, mas também uma investigação sobre a banalidade da vida, o que pode torná-la por vezes mágica e especial e tantas outras vezes comum e insossa.

    O elenco escolhido é um dos motivos do sucesso da trama. Mason é filho de Olivia (a talentosíssima Patricia Arquette) e tem uma irmã mais velha, Samantha (Lorelei Linklater, filha do diretor). É o amadurecimento dessas relações familiares que está na superfície de Boyhood, sem esquecer de uma reflexão sobre o estilo de vida americano e sobre as dificuldades da maternidade. 

    Quanto toca na relação entre Mason e o pai (Ethan Hawke), o filme também mostra que não segue o padrão confortável do cinema hollywoodiano. Irregular, a construção do personagem foge da horizontalidade que poderia açucarar a trama. A transformação deste personagem ao longo dos anos é trampolim para mais uma atuação brilhante de Hawke, que parece sempre confortável diante do texto de Linklater.

    O valor da narrativa de Boyhood está justamente na simplicidade de seus temas e na fácil identificação entre nossas memórias e o que vemos na tela. Enquanto lutam para fazer o melhor que podem para criar seus filhos, os pais da trama erram, falham e parecem por vezes confusos em meio ao caos que a paternidade parece abraçar. Esse apreço que o diretor parece tem pelo dia-a-dia, com todos os seus altos e baixos, é o que torna o filme algo tão rico, emocionante e em muitos momentos irremediavelmente cômico. A conexão entre nossas histórias e a vida desses personagens faz do ato de assistir Boyhood uma aproximação com nossas próprias experiências.

    Dificilmente veremos tão cedo um filme com tamanha intensidade e ousadia. Tanto tempo, tantas memórias e os personagens do filme, ao final, recuperam a fatídica pergunta: afinal, qual o sentido da vida? Crescer, aprender, construir nossa identidade, transformar as pessoas ao redor, talvez essa seja a resposta nos dias atuais, nos anos 90, daqui mil anos. Boyhood é um belo e profundo casamento entre a ficção e a realidade.