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    CAIRO 678

    Longa mostra o quanto enraizado culturalmente é o problema do desprezo da mulher no Egito moderno
    Por Roberto Guerra
    07/03/2012

    A expressão assédio sexual aqui no Brasil faz vir à cabeça casos de chefes que usam do poder corporativo para se insinuar e exigir favores sexuais de alguma funcionária atraente. No drama de egípcio Cairo 678 o termo assume um significado muito mais abrangente e chocante, graças à realidade cultural diversa do Egito.

    Baseado em fatos reais, o filme entrelaça a história de três mulheres diferentes e suas experiências com o assédio sexual num país machista e atrasado onde, não raro, as vítimas é que são penalizadas com a humilhação pública e desconfiança. As personagens são Fayza, Seba e Nelly, egípcias de classes sociais diferentes e vítimas do mesmo crime, algo corriqueiro no dia a dia da capital Cairo e hipocritamente tolerado pela sociedade.

    Fayza (Nelly Karim) passa um tormento diário toda vez que precisa pegar um ônibus, já que todos são lotados e os homens se aproveitam disso para molestarem as mulheres. Seba (Bushra) foi violentada nas comemorações de rua após um jogo de futebol. Mesmo acompanhada do noivo, ela é arrastada na confusão por um grupo de homens que se aproveitam dela. Esse fato destrói seu relacionamento e a transforma em ativista pelos direitos da mulher. Nelly (Nahed El Sebai) é uma atendente de telemarketing, aspirante a comediante de stand up, também é abusada por um homem que a arrasta pela blusa de dentro do carro. Mesmo pressionada pelos familiares a “deixar pra lá”, Nelly procura a policia e denuncia o homem por assédio sexual, o primeiro processo por essa acusação a ir adiante no país.

    A história dessas três vítima do abuso masculino se cruzam em certo momento no longa do diretor Mohamed Diab, um trabalho com tom deliberadamente político e panfletário. Um filme-denúncia que mostra, às vezes com certa imaturidade, três mulheres que resolvem lutar contra o sistema à sua própria maneira. Fayza por meio da revanche violenta, Nelly nos tribunais e Seba com seu ativismo. Simples no trato com a imagem e na narrativa, o ponto alto de Cairo 678 está no bom desempenho do trio de atrizes, cuja a dor e angústia Diab capta muito bem em closes generosos.

    Os ataques da personagem Fayza, que usa um canivete para ferir os pervertidos, acabam ganhando as manchetes dos jornais e colocam em cena um investigador da polícia (Maged El Kedwany). Ele tenta encontrar o culpado colhendo depoimentos dos homens que foram atacados. Aqui o filme resvala de novo em certo amadorismo mostrando um policial ao melhor estilo Columbo, encontrando pistas fáceis e improváveis como nos seriados de TV da década de 70.

    Em contrapartida, Cairo 678 faz um explanação aprofundada do quanto enraizado culturalmente é o problema da relação homem-mulher na atual sociedade egípcia. Diab oferece uma visão aguda no trauma psicológico e social que as mulheres egípcias têm sofrido por gerações, um problema muitas vezes completamente ignorado e tratado como algo menor.