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    CAMINHO DA LIBERDADE

    Diretor Peter Weir mostra que continua sensivel para comandar dramas humanos <br />
    Por Celso Sabadin
    09/05/2011

    É visível a proliferação, nos últimos anos, dos filmes ”baseados em fatos reais” e dos documentários. Provavelmente isso tem acontecido por dois fatores básicos: (1) os fatos reais estão se mostrando mais interessantes que a ficção e (2) os roteiristas de ficção parecem chegar a um limite de esgotamento criativo. Não concordo com o ex-cineasta e escritor Peter Bogdanovich, que diz que “todos os bons filmes já foram feitos”. Não. Mas não há como negar que – principalmente após o fatídico 11 de setembro de 2001 – a realidade tem se mostrado mais surpreendente que a ficção.

    Uma destas histórias absolutamente surpreendentes veio à tona no livro The Long Walk: The True Story of a Trek to Freedom, publicado em 1956, onde o tenente polonês Slamovir Rawicz escreve sua própria história. Capturado pelos russos e condenado por espionagem durante a 2ª Guerra, Slamovir foi enviado para um campo de concentração na Sibéria, de onde, surpreendentemente, conseguiu escapar. Mas sua fuga, ao lado de um pequeno grupo de companheiros, está longe de ser o ato mais inacreditável do livro. Ela é apenas o primeiro passo de uma gigantesca caminhada rumo à tão sonhada liberdade.

    O livro virou roteiro cinematográfico pelas mãos do documentarista Keith R. Clarke e se transforma agora num belíssimo filme assinado pelo australiano Peter Weir, diretor do inesquecível Sociedade dos Poetas Mortos. A produção foi bancada com dinheiro de produtores majoritariamente norte-americanos (incluindo o braço cinematográfico da centenária National Geographic Society), com uma pequena colaboração vinda da Polônia e do emirado árabe de Abu Dhabi.

    O ponto de partida do filme é a Polônia de 1940, dividida entre as forças de Hitler e de Stalin. Neste cenário de total insegurança social e política, o jovem polonês Janusz é denunciado por espionagem pela própria esposa e enviado para a Sibéria, onde é condenado a trabalhos forçados em condições subumanas.

    Engana-se quem pensa que começa aí um clássico filme sobre prisão. A dramática aventura propriamente dita tem início quando Janusz e alguns colegas conseguem fugir do campo de concentração e se vêem diante de milhões de quilômetros quadrados da mais desoladora e gélida paisagem que existe sobre a face da Terra. Só há uma solução para sair dali: caminhar. E muito. Mais de seis mil quilômetros, como os letreiros iniciais do filme já, infelizmente, anunciaram (teria sido mais interessante deixar a informação para o final, mas enfim...).

    Este punhado de homens que transita pelo tênue limite que separa a coragem da loucura aos poucos vai formando uma unidade indivisível na luta pela sobrevivência. Pessoas que há pouco sequer se conheciam, que não compartilhavam sequer o idioma, desenvolvem fortes laços de amizade, lealdade e interdependência, tudo em nome de um objetivo maior: um pouco mais de vida. Somente unidos eles poderão lutar contra o gelo avassalador, o sol assassino, a fome, a sede, o desequilíbrio emocional, e talvez o mais cruel dos inimigos: a ignorância do homem em tempo de guerra.

    Após sete anos sem filmar (seu último longa era Mestre dos Mares, de 2003), Peter Weir mostra que continua genialmente sensível para dirigir histórias humanas. Afinal, não é todo ano que vemos nos cinemas filmes como Sociedade dos Poetas Mortos, O Ano que Vivemos em Perigo ou O Show de Truman, todos assinados por ele. Weir novamente se apoia sobre um elenco talentoso e sabe como dele extrair os melhores resultados. Em Caminho da Liberdade, obtém interpretações magistrais e uma magnífica unidade dramática de Ed Harris (de Pollock), Colin Farrell (O Sonho de Cassandra) e Saiorse Ronan (Desejo e Reparação), entre outros.

    Tecnicamente, Caminho da Liberdade é irretocável. A maquiagem nas cenas de intenso calor é das mais convincentes, a fotografia nos lança diretamente na ação, e as belíssimas locações incluem índia, Marrocos, Bulgária e Austrália.

    O filme foi um retumbante fracasso de bilheteria nos EUA, onde não chegou a faturar US$ 3 milhões. Azar deles.