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    CAPITÃES DA AREIA

    Filme se distancia em densidade dramática – e também em ritmo – do livro de Jorge Amado. <br />
    Por Roberto Guerra
    05/10/2011

    Cecília Amado revelou em entrevista considerar Capitães da Areia o livro mais cinematográfico de seu avô, o escritor Jorge Amado. “Lia cada capítulo com a sensação de que estava assistindo a um filme”. Isso a motivou a levar às telas um dos romances mais conhecidos do escritor baiano, sobre o grupo de menores delinquentes da Salvador dos anos 30 liderados pelo astuto Pedro Bala.

    De fato, ao ler a obra nota-se de imediato seu potencial cinematográfico, graças a personagens fortes e bem desenvolvidos, curva dramática equilibrada e linhas de ação diversas -igualmente importantes - dentro da mesma história. Mas o Capitães da Areia filme se distanciou em densidade dramática – e também em ritmo – do bom livro de Amado.

    O longa reafirma o que vem se tornando comum no cinema nacional atual: a preocupação com o lado plástico da obra em detrimento da exploração dos conflitos humanos. É como se os realizadores brasileiros de hoje sentissem a necessidade de afirmar: “Olha, nós somos capazes de fazer um filme tecnicamente bom como os gringos. Não sofremos mais com os problemas de acabamento do passado”. Fato. O apuro técnico e visual é bem-vindo e fortalece a unidade de um filme, mas este ainda é fundamentado numa boa história a ser contada. No caso específico de Capitães da Areia, o roteiro de Cecília Amado e Hilton Lacerda não conseguiu abarcar a intensidade dos personagens e seus conflitos. Temos espectros dos meninos do livro emoldurados por uma Salvador transportada para os anos 50 e muito bem captada pela diretora.

    Os Capitães da Areia são, como definem os jornais da época, um bando de meninos delinquentes que vive pelas ruas e incomoda a sociedade. Eles moram em um velho trapiche abandonado, no antigo cais da cidade, e planejam desde furtos até golpes mais sofisticados, como assaltos a mansões. São comandados pelo temido Pedro Bala. Ele e seus amigos Professor, Gato, Sem-Pernas, Boa Vida e Dora são os personagens principais da história, inseridos num contexto de festejos do dia de Iemanjá, festas populares e descobertas típicas da adolescência.

    São interpretados por jovens desconhecidos do público. A diretora selecionou os atores em oficinas culturais de ONGs que atuam na periferia soteropolitana. Aqui temos outro problema. A falta de experiência dos aspirantes a ator pode ser notada no filme, que errou em não colocar ao menos os personagens principais nas mãos de profissionais mais experientes. Jean Luis Amorin, que interpreta Pedro Bala, até que se esforça, mas não consegue driblar o fato do papel ser muito complexo para ele. Os destaques acabam sendo os coadjuvantes Robério Lima, no papel de Professor, e Ana Graciela, que vive Dora, única menina do grupo e par romântico do protagonista.

    Na ausência de personagens e conflitos trabalhados a contento, cabe a outro aspecto técnico segurar a atenção do espectador: a montagem. Ágil, ela prende e evita a dispersão, quando se tinha material humano suficiente no livro para isso. Os Capitães da Areia de Cecília Amado não conseguiram provocar neste crítico o efeito que os meninos de rua, moradores de um trapiche à beira do cais de Salvador, provocaram anos atrás quando tive minha adolescência marcada pelo livro do baiano Amado.