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    CASA VAZIA

    Por Celso Sabadin
    22/05/2009

    O cinema oriental ataca novamente. E com muita qualidade! Co-produzido entre Japão e Coréia do Sul, Casa Vazia é um drama belo e hipnótico que merece ser conferido com muita atenção. O filme começa de maneira simples e despretensiosa, mostrando um jovem distribuindo panfletos publicitários em portas de casas e apartamentos. Um gesto corriqueiro que revela intenções pouco nobres: no dia seguinte, o rapaz observa as residências que ainda mantêm os folhetos presos às portas, o que sinaliza o título do filme - casa vazia - e, portanto, passível de ser arrombada. Um ladrão? Não. Novamente o roteiro nos prega uma peça e mostra que o jovem entra nas casas apenas para tomar um banho, ver um pouco de TV e desfrutar de uma boa noite de sono. Assalto, somente às geladeiras. Em troca, ele conserta algo que esteja quebrado e ainda lava algumas peças de roupas da residência invadida. Quando percebe que o dono pode voltar, vai embora.

    O conflito começa de fato quando o rapaz, numa de suas invasões, conhece uma modelo agredida pelo marido. A identificação entre ambos é imediata. Cada um parece projetar no outro o apoio necessário para suportar suas contrariedades. Ele, vitimado pela extrema solidão, se solidariza com ela na dor. Ela, com hematomas físicos e emocionais, vê nele a fuga possível. Os dois outsiders ensaiam uma associação amorosa e "profissional" no ofício do arrombamento.

    O diretor e roteirista sul-coreano Kim Ki-Duk (de Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera) traça em Casa Vazia um doloroso e poético painel sobre a solidão e o isolamento. A direção é extremamente sóbria e minimalista. Os protagonistas nem precisam se expressar verbalmente para externar suas dores. Não há uma única palavra trocada pelo casal. Já os coadjuvantes falam normalmente. Mas o que é "normalmente"? Esta profunda dicotomia entre o verbal e o não-verbal contribui para que os protagonistas sejam colocados num outro plano, numa espécie de limbo situado alguns patamares acima da existência banal e cotidiana. Mais que isso, o rapaz arrombador de casas ainda desenvolve um treinamento para passar o mais despercebido possível de todos, para quase "desaparecer", numa licença poética que pode simbolizar um verdadeiro nirvana dentro de um insatisfatório cotidiano material. Se o Budismo prega que o homem deve se desprover de tudo o que ele não possa carregar consigo, o filme propõe - radical e poeticamente - que o próprio peso do nosso corpo faça parte deste desprendimento.

    Vencedor do Prêmio da Crítica em Veneza, Casa Vazia é uma ode ao desapego como caminho para o combate à solidão. Belo e poeticamente oriental.