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    CAVALO DE GUERRA

    Apesar de buscar a emoção fácil, longa mostra que o bom e velho Spielberg ainda vive
    Por Paulo Gadioli
    04/01/2012

    Após o desastre chamado Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, Steven Spielberg volta para trás das câmeras e apresenta no início de 2012 uma dobradinha: As Aventuras de Tintim: O Segredo do Licorne e Cavalo de Guerra. A existência do primeiro, voltado principalmente ao público infantil, permitiu ao cineasta explorar com mais liberdade temas comuns em sua filmografia - como amadurecimento, confrontos familiares e até mesmo a violência da guerra - no segundo. No entanto, Cavalo de Guerra decepciona ao não confiar na força de sua história e apelar para a emoção fácil.

    Os primeiros cinco minutos servem como sinal de alerta. Nesta sequencia inicial, o jovem Albert Narracott, personagem de Jeremy Irvine, testemunha o nascimento do cavalo que virá a ser seu companheiro durante o filme. Como não estamos familiarizados com nenhum dos personagens, a relação entre eles não possui, por enquanto, valor dramático suficiente para tomar ares de narrativa épica.

    Porém, a bela trilha criada por John Williams sugere outra coisa. Pelo que estamos ouvindo, e pelo que Irvine tenta forçosamente transmitir, está se desvelando na frente de nossos olhos um dos acontecimentos mais emocionantes da história. O momento é importante, claro, pois trata-se do primeiro encontro entre os dois principais personagens do filme. Seria completamente compreensível, caso esta supervalorização do momento não se repetisse incessantemente durante o filme, banalizando as emoções do espectador.

    Cavalo de Guerra não somente pede pra você se emocionar. Ele implora. O que é uma pena, pois Spielberg conta uma história rica o suficiente por si só. Temos, por exemplo, o pai que tenta superar a pobreza e a dificuldade de cuidar de sua família. O azarão que chega ao lar como sinal de má sorte. O carrasco dono das terras. A mãe durona. O ganso briguento. A inevitável e trágica separação, quando o animal finalmente é enviado para a Guerra e também o amadurecimento de Albert, disposto a se voluntariar no Exército para reencontrar seu amigo.

    É justamente nesta necessidade de amadurecer que o filme cresce. O momento em que Joey parte para a guerra é decisivo. Sai o tom piegas da primeira parte, que tinha como principal ponto positivo a bela fotografia de Janusz Kamiński, e entra um resquício do tipo de cinema que tornou Spielberg famoso. O cavalo passa a ser o fio condutor por uma série de situações que mais parecem vinhetas, como se fossem pequenos contos, que eventualmente o transformarão em um Cavalo de Guerra.

    Individualmente, estas cenas em que Joey está perdido do lado errado mostram relances daquele hábil e manipulador Spielberg, capaz de emocionar plateias facilmente. Seja no conto dos garotos jovens demais para as responsabilidades da guerra, da menina madura demais para a gravidade de seus problemas ou do próprio sofrimento a que os animais eram submetidos na época, temos um sinal de que o bom e velho diretor de E.T. – Extraterrestre ainda vive.

    Próximo ao final vemos uma das mais belas cenas dos 146 minutos de projeção. Nela, o cavalo fica preso entre os dois lados da guerra. A impressão é que Spielberg, assim como Joey, criou sua própria Terra de Ninguém. De um lado das trincheiras está o hábil manipulador do início da carreira, enquanto, do outro, o visceral contador de histórias de O Resgate do Soldado Ryan. Como no filme, as duas partes se ajudam e, ainda que a combinação não seja perfeita, funciona.