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    CIDADE DE DEUS

    Por Celso Sabadin
    30/08/2002

    Teria finalmente surgido o grande filme brasileiro do ano? A julgar pelas primeiras reações, tudo indica que sim. Forte, vigoroso, energético, Cidade de Deus chega prometendo polêmica e - melhor - filas nas portas dos cinemas.

    Exibido fora de competição no Festival de Cannes, o filme centraliza sua narrativa na figura de Buscapé (Alexandre Rodrigues), um jovem pobre, negro e muito sensível. A favela onde ele vive é um verdadeiro caldeirão de violência dominado pelo tráfico e pela criminalidade. Mesmo cercado pelas drogas e pela bandidagem, Buscapé consegue a proeza de não se tornar um marginal, ao conseguir um emprego de fotógrafo. Um fotógrafo que vai retratar como poucos toda a dor e o inferno desta cidade ironicamente chamada "de Deus".

    Mas Buscapé é apenas um entre as centenas de moradores do lugar. E também apenas um entre as dezenas de personagens criadas pelo escritor Paulo Lins em seu livro homônimo que inspirou o filme. Talvez "personagens" não seja a melhor palavra, já que a obra de Lins é tristemente baseada em fatos pra lá de reais. A situação, de uma maneira geral, todos conhecem, nem que seja pela imprensa: miséria quase absoluta, jogos de poder, corrupção policial. Mas que ninguém espere de Cidade de Deus apenas mais um blá-blá-blá social como tantos já feitos. Nada disso. O filme é vibrante. Utiliza-se de todas as ferramentas cinematográficas disponíveis para traçar um triste e amplo painel dos excluídos. Sem mocinhos, nem bandidos: apenas excluídos. Cada qual com a sua motivação, suas razões, suas formas de encarar a vida. Se é que isso pode ser chamado de vida.

    Completamente diferente da favela cenográfica de Orfeu, as vielas da Cidade de Deus são reais. Ultra-reais. E habitadas por crianças e jovens recrutados em subúrbios cariocas que por algumas semanas se transformaram nos atores do filme. Interpretando, praticamente, a si próprios. Foram mais de duas mil entrevistas, mas o esforço valeu a pena: o elenco é de marejar os olhos.

    A direção de Fernando Meirelles (do excelente Domésticas, o Filme) e de Katia Lund chega a impressionar. Eles não poupam cortes, montagens alucinantes, câmeras tão nervosas quanto o próprio tema do filme e até efeitos visuais que chegam a lembrar Matrix.

    São mais de duas horas de projeção que prendem o espectador na poltrona do cinema. Um filme que arrepia, faz pensar e abre novas formas de se ver um problema tão antigo e tão cercado de preconceitos e lugares-comuns.

    Imperdível.

    29 de agosto de 2002
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    Celso Sabadin é jornalista e crítico de cinema da Rádio CBN. Às sextas-feiras, é colunista do Cineclick. celsosabadin@cineclick.com.br